Escola de Redes

Pessoal, gostaria que pudéssemos compartilhar um pouco de idéias e experiências com iniciativas que nos permitam sobreviver de netweaving, mas sob um ponto de vista específico.

De certa forma, todos buscamos articular e animar redes, nos comportando de modo evitar centralizações onde atuamos, permitindo a livre construção bolhas de interação ocorra, criando pequenos impactos que visem desarticular hierarquias nestas bolhas etc. Enfim, devem ser inúmeras as maneiras, de acordo com a rede de pessoas que cada um de nós interage.

Uma das questões fundamentais na articulação de redes está na topologia dela, a qual deve ser mais distribuída que centralizada, evitando que se criem hierarquizações e todos os comportamentos decorrentes. Porém, vivemos em uma sociedade que age, sente e pensa ainda, em sua maioria, de forma centralizadora e hierarquizante, trazendo com isso toda uma escala de valores e reconhecimento.

Muitas pessoas não sabem o que é netweaving, não conhecem redes sociais e toda sua fenomenologia, porém, tem interesse em conhecer e saber mais. Estas pessoas, de alguma forma identificaram a matrix em que vivem, e procuram alternativas que podem convergir na nova ciência das redes que estudamos e comentamos aqui na e=r.

Então chegamos ao ponto da questão. Como seria uma forma de remuneração para disponibilizar, trocar, entregar, fornecer este conteúdo sobre redes, porém, já articulando o netweaving, ou seja, sem continuar transmitindo um conhecimento da mesma maneira que estruturas hierarquizantes o fazem (o que me parece ser uma contradição).

Por exemplo, somos convidados a falar sobre redes. Naturalmente, pensamos em palestras ou cursos sobre os temas de interesse. Dar uma palestra ou um curso (na maioria das vezes, também palestrando), na base de alguém transmitindo um conhecimento a outro, isso não seria uma contradição ao realizar netweaving? E isso, seja pelo modelo de transmissão de conhecimento, seja pelo fato de que o que a pessoa conhece ou aprende não cria mudança na rede, mas sim, sua topologia? Assim, questiono se ao buscarmos articular redes, se o fato de compartilhar conhecimento (ainda mais na forma tradicional de palestras ou cursos) até onde isso é contraproducente ao netweaving. E ainda, entendendo que esta forma de palestras e cursos é aceita, reconhecida e valorizada pela matrix, se não existiria outra forma que permitisse que um netweaver seja remunerado quando houverem pessoas interessadas em conhecer, saber, aprender, trocar idéias a respeito de redes. Gostaria de saber o pensam a respeito e se possuem alguma experiência de remuneração que seja afinizada com o que entendo estar na base fundamental do netweaving: a topologia articulada, e não o conhecimento transmitido.

Um fraternal abraço a todos!

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Respostas a este tópico

É... Acho que não há uma fórmula aplicável a várias circunstâncias, Marcelo. Cada caso é um caso e depende mesmo das redes a que estamos conectados.

Não tenho uma boa resposta para a pergunta sobre como viver do fluxo (sendo remunerado pela função de netweaving).

Esse novo papel social - o do netweaver - não é uma característica individual, mas emerge de um emaranhado. Isso nos leva a pensar que é esse emaranhado (uma comunidade) que deveria cuidar da sustentação dos seus netweavers.

Dar aula ou fazer palestras (presenciais ou não) é broadcasting. É claro que, enquanto está fazendo isso, uma pessoa não está agindo de modo distribuído, "por dentro" das conexões de suas redes. Mas se for a única maneira de sobreviver, fazer o quê? Pessoalmente acho melhor do que montar ou entrar em uma organização hierárquica.

Até mesmo escrever livros e vendê-los é, em sentido estrito, broadcasting. Mas já acho melhor ainda. O problema é que pouquíssima gente consegue sobreviver assim.

Acho que não tem muito jeito. Vivemos num campo social deformado, infestado de hierarquias. Não é razoável esperar que consigamos sobreviver sem nos relacionarmos economicamente com hierarquias. Ainda que seja possível reduzir esse grau de dependência. Mas é preciso ver que redes são movimentos de desconstituição de hierarquias, o que significa que talvez nosso papel (de netweavers) seja mesmo o de vivermos como peregrinos, nômades, viajantes dos interworlds...

Entendo e concordo contigo Augusto. Mas acho que vale a troca aqui, com você e tantas outras pessoas aqui da e=r, de experiências ou idéias de que poderíamos buscar fazer, em meio a esta estrutura ainda centralizada que vivemos. Experiências e idéias que visem tanto sair da maneira broadcasting de atuar, como buscar cada vez mais fazer, com tais pessoas interessadas no tema, vivências de topologias mais distribuídas do que focar em conteúdo a ser transmitido. Será que alguém por aqui tentou já algo semelhante? Será que conseguimos co-criar algo que ajude a todos neste sentido?

Este tema me interessa. Algumas vezes digo que a minha profissão é de: "gestor netweaver". Saber animar uma rede, mapear oportunidades, identificar alianças estratégicas, enfim, disseminar a cultura digital valorizando o empreendedorismo em suas mais variadas facetas, me parece uma contribuição efetiva. Mas este é um enfoque pessoal que estou descobrindo com o tempo, dentro de um exercício sinérgico com o jornalismo, minha profissão de origem. Também sou gestor de projetos e busco aplicar conhecimentos das boas práticas de gestão para alcançar resultados efetivos, mensuráveis. Mas encaro tudo isso como um laboratório. Tenho como hábito estudar a epistemologismo das palavras. Não tenho nenhum problema com hierarquia, considerando que refere-se a ordem sagrada. Grego ἱερός = sacro; e ἀρχή = princípio, início. Latim gero = gerir, fazer[1]. É a capacidade de gerir o(s) princípio(s). Ou seja, mesmo toda a reflexão e análises que negam o ordenamento são proferidos por alguém que torna-se uma referência de um saber. Ou seja, se coloca num lugar que propõe algo novo, que estrutura um ordenamento de pensamento, mesmo tratando-se de uma premissa. Mas tudo isso é uma visão pessoal. Gosto muito das abordagens do Augusto de Franco. Ele navega em mares que estou aprendendo a navegar. Interessante a visão de peregrinos, nômades, viajantes do interworlds. Mas se considerarmos que um peregrino numa rede pode despertar o interesse de alguns seguidores, ou discípulos peregrinos, pronto, já existe uma hierarquia, ou um modelo. Imagine se eu quiser seguir o Augusto de Franco? Se ele é uma referência para mim? Se eu comungar de sua visão de mundo. Pronto, tô fu... Ele mesmo nega seu papel de Mestre. É uma pregação insustentável. Mas realmente admiro o papel de negar e combater a hierarquia. Muito importante este papel. Que ele continue a formar discípulos e seguidores pois, com certeza, são pessoas pensantes que buscam um lugar ao sol. Se não fosse esta reflexão nem estaria escrevendo estas palavras e compartilhando alguma experiência neste campo...

Engraçado que esta noite eu estava pensando a respeito, revendo informações sobre geração de modelos de negócio ( ou a falta deles... ). Como disse o Augusto, enquanto estivermos em um mundo de hierarquias, vamos precisar conviver com elas mesmo que para desmontá-las - desmontar, não destruir. Gostei muito da idéia do Oswaldo de Oliveira no festival de idéias, e resumindo o trabalho que vai dar para fazer: "o bagulho é lôco e a parada é sinistra" como ele mesmo disse. Mas essa é apenas uma idéia. Há diversos negócios sendo feitos de maneira mais distribuída do que centralizada, embora a atividade de netweaving não seja diretamente remunerada, mas abra caminhos para realização de novos negócios. Alguém tem mais exemplos para citar?

É... Josué, sua argumentação é verossimilhante, mas distorce a origem histórica de hierarquia. Sagrado significava separado e não algo melhor, sublime, fundante de qualquer coisa constitutiva da humanidade, que supostamente devêssemos preservar! Sim, isso faz toda a diferença.

Num sentido geral aplica-se a palavra hierarquia para designar quaisquer arranjos de itens (objetos, nomes, valores, categorias) nos quais esses itens são representados como estando “acima”, “abaixo”, ou “no mesmo nível” de outro. Em matemática o conceito designa um conjunto ordenado ou um grafo dirigido sem ciclos direcionados (grafo acíclico dirigido, abreviado por DAG - Directed Acyclic Graph). Mas esse é um sentido deslizado do original. O termo surgiu para designar ordens de seres intermediários entre entidades celestes e terrestres (e foi usado, por exemplo, por Pseudo-Dionísio, o Areopagita, no século 5, para designar os coros angélicos).

A palavra hierarquia vem da palavra latina hierarquia que, por sua vez, vem da palavra grega ἱεραρχία (hierarchía), de ἱεράρχης (hierarchēs), aquele que era encarregado de presidir os ritos sagrados: ἱερεύς = hiereus, sacerdote, da raiz ἱερός = hieros, sagrado + ἀρχή = arché, tomada em várias acepções conexas como as de poder, governo, ordem, princípio (organizativo).

A hierarquia é um poder sacerdotal vertical que se instala em uma sociedade instituindo artificialmente a necessidade da intermediação por meio de separações (entre superiores e inferiores). Em geral é representada pela pirâmide (poucos em cima e muitos em baixo) ou pela aranha (que tem uma cabeça e vários braços ou pernas, em oposição a uma estrela-do-mar, que não tem centro de comando e controle). A hierarquia celeste (com seus serafins, querubins, tronos, dominações, potestades, virtudes, principados, arcanjos e anjos) e a hierarquia militar (com generais, coronéis, majores, capitães, tenentes, sargentos, cabos e soldados) são os exemplos mais comuns, paradigmáticos, de hierarquia. Mas qualquer padrão de organização que introduz anisotropias no campo social direcionando fluxos é hierárquico (seja em uma organização estatal, empresarial ou social, religiosa ou laica, militar ou civil). 

Agora, o fato de qualquer pessoa se tornar uma referência ou exercer influência não implica que ela tenha poder (no sentido de poder de mandar nos outros, que é o único sentido relevante de poder do ponto de vista da rede, que é o nosso ponto de vista). Não há como exercer poder sem excluir nodos, eliminar conexões ou separar clusters. Redes (mais distribuídas do que centralizadas) não são modelos alternativos de organização à hierarquias (redes mais centralizadas do que distribuídas): redes são, simplesmente, movimentos de desconstituição de hierarquias.

A confusão (intencional ou não) entre influência e poder (no sentido acima) tem, infelizmente, servido ao propósito de salvar as hierarquias. Mas não se pode salvá-las. Elas são o problema.

Josué de Menezes disse:

Este tema me interessa. Algumas vezes digo que a minha profissão é de: "gestor netweaver". Saber animar uma rede, mapear oportunidades, identificar alianças estratégicas, enfim, disseminar a cultura digital valorizando o empreendedorismo em suas mais variadas facetas, me parece uma contribuição efetiva. Mas este é um enfoque pessoal que estou descobrindo com o tempo, dentro de um exercício sinérgico com o jornalismo, minha profissão de origem. Também sou gestor de projetos e busco aplicar conhecimentos das boas práticas de gestão para alcançar resultados efetivos, mensuráveis. Mas encaro tudo isso como um laboratório. Tenho como hábito estudar a epistemologismo das palavras. Não tenho nenhum problema com hierarquia, considerando que refere-se a ordem sagrada. Grego ἱερός = sacro; e ἀρχή = princípio, início. Latim gero = gerir, fazer[1]. É a capacidade de gerir o(s) princípio(s). Ou seja, mesmo toda a reflexão e análises que negam o ordenamento são proferidos por alguém que torna-se uma referência de um saber. Ou seja, se coloca num lugar que propõe algo novo, que estrutura um ordenamento de pensamento, mesmo tratando-se de uma premissa. Mas tudo isso é uma visão pessoal. Gosto muito das abordagens do Augusto de Franco. Ele navega em mares que estou aprendendo a navegar. Interessante a visão de peregrinos, nômades, viajantes do interworlds. Mas se considerarmos que um peregrino numa rede pode despertar o interesse de alguns seguidores, ou discípulos peregrinos, pronto, já existe uma hierarquia, ou um modelo. Imagine se eu quiser seguir o Augusto de Franco? Se ele é uma referência para mim? Se eu comungar de sua visão de mundo. Pronto, tô fu... Ele mesmo nega seu papel de Mestre. É uma pregação insustentável. Mas realmente admiro o papel de negar e combater a hierarquia. Muito importante este papel. Que ele continue a formar discípulos e seguidores pois, com certeza, são pessoas pensantes que buscam um lugar ao sol. Se não fosse esta reflexão nem estaria escrevendo estas palavras e compartilhando alguma experiência neste campo...

No domínio da produção e partilha de conhecimento de forma descentralizada, creio que poderão considerar-se os massive open online course (MOOC) como sendo uma alternativa viável às preocupações assinaladas no texto.

A este propósito sugere-se a visita, a título de exemplo, do sítio mooc.ca, bem como a visualização do vídeo "What is a MOOC?", entre muitas outras fontes sobre o assunto.

Marcelo, tudo bem? Na grande maioria das vezes que prestei serviços de netweaving e sobre o tema redes sociais  a expectativa do contratante era transmissão de conhecimento e articulação de organizações e pessoas com alguma horizontalidade. Como se faz isso varia e influi a rigidez hierárquica onde os processos estão acontecendo. Por exemplo, fiz alguns trabalhos em estruturas de governo e com ongs, nos dois encontrei estruturas bem verticalizadas.

Pode-se oferecer experiências temporárias de horizontalidade e autonomia e que não afetam de modo transformador as organizações, mas acho que afetam algumas pessoas.  

 Abraços

No mercado a decisão  do comprador  do serviço e do contratante define muitas coisas. Falo isso no sentido de que quem define as regras não são apenas as pessoas que desejam trabalhar de netweaver.  Tb aqui o que conta é a interação, o contexto. abraço

Marcelo Maceo disse:

Entendo e concordo contigo Augusto. Mas acho que vale a troca aqui, com você e tantas outras pessoas aqui da e=r, de experiências ou idéias de que poderíamos buscar fazer, em meio a esta estrutura ainda centralizada que vivemos. Experiências e idéias que visem tanto sair da maneira broadcasting de atuar, como buscar cada vez mais fazer, com tais pessoas interessadas no tema, vivências de topologias mais distribuídas do que focar em conteúdo a ser transmitido. Será que alguém por aqui tentou já algo semelhante? Será que conseguimos co-criar algo que ajude a todos neste sentido?

Viver de netweaving é profissão de fé.

Tecer redes é o que se faz incessantemente, mesmo que não distribuidas, afinal um organograma é uma rede topológicamente articulada para organizar o poder do dono em seu  próprio beneficio. Ser esta pessoa, ou participar do "negócio" dele, é o que deixa de nos atrair e nos impulsiona a procurar novas formas de nos relacionar mais sintonizadas com nossas transformações pessoais.

Transparência nas relações produtivas, liberdade de comunicação,  conhecimento compartilhado, sustentabilidade, proteção ecológica, relacionamento cordial com parceiros são condições  básicas necessárias  para que o trabalho perca seu aspecto de castigo divino. Pelo contrário, quantos aqui na escola de rede podem dizer que não desconsideraram as dificuldades (geralmente baixa remuneração) de um trabalho que tocava ao coração.

O que quero dizer é que viver de tecer redes se aplica ao seu ambiente. As redes que criamos para garantir nossa sustentação econômica precisam absorver estes parâmetros. Pensar um novo modelo de empreendimento fundado, criado, plasmado ou seja lá o verbo mais adequado para dar vida esta "empresa" é a tarefa a ser realizada.

Em todas as áreas de atividade existe espaço para, se reconectar às pessoas a sua volta. Se você é o patrão, ou  chefe, pode distribuir suas responsabilidades, mas terá também de redistribuir o poder e falando objetivamente do dinheiro. Isto destravaria boa parte dos conflitos. Seria fácil já que estamos todos convencidos de este é a nova forma

Entretanto, este encontro entre a formulação teórica e gestão descentralizada de nosso ambiente ainda não ocorreu. Quem encontrar o caminho das pedras inicia uma  real transformação em nosso modo de viver

Esse assunto foi tratado aqui. Vejam: A dramática questão da sobrevivência do netweaver em Comentários ao Small Bangs.

Interessante, não conhecia o significado do sagrado como algo separado. Para mim o sagrado tem o sentido simbólico de União, de agregação, algo estruturante. Inclusive existem alguns estudos científicos que confirmam esta visão. Alguém que cultua o sagrado, independente de credos, que considera a existência de um Criador, de um Ente Superior ou Deus, como é mais popularmente conhecido, tem uma facilidade maior de lidar com a hierarquia como algo natural.

Se esta visão é melhor ou pior já algo que entra no campo dos valores subjetivos. O sentido de preservação e zelo pelo que é sagrado também está no território da subjetividade, da forma como sentimos e percebemos a vida, a existência e a harmonia do nosso estado de espírito que busca a convergência e o entendimento, ou algo fraterno.

Mas de qualquer forma, também considero a sua linha de argumentação verossimilhante como algo ideológico. A distorção não está no fundamento da hierarquia, mas no que o ser humano faz com ela. Vivemos numa crise civilizacional. Grande parte das pessoas que ocupam o lugar de autoridade são incompetentes e não entendem que não são a própria autoridade. Na realidade, estão ocupando um lugar de comando. Não são nem melhores ou piores de que ninguém. Deveriam entender que o lugar de autoridade é o de servir.

As distorções e deformações são advindas desta inversão de valores, de que a hierarquia não tem nada a ver com submissão, com retalhação, com superioridade e todas estas coisas que deformam e corrompem as instituições. 


Mas do ponto de vista sociológico, mais especificamente no estudo do direcionamento dos fluxos sociais, o sentido hierárquico apresenta um entendimento do campo anisotropia (seja em uma organização estatal, empresarial ou social, religiosa ou laica, militar ou civil). Talvez está faltando palavras para diferenciar as coisas. 

 

A ideologia trabalha as ideias de forma fragmentada, independentes da realidade histórica e social. Uma visão ideológica de um fenômeno busca explicar a realidade, quando na verdade, é a realidade que deveria tornar compreensível as ideias elaboradas.

A ciência das redes é muito interessante justamente por nos conduzir a este nível de reflexão. Não estaríamos dialogando e nos aprofundando nestes temas desta forma se não tivéssemos algum ponto de motivação em comum.

Mas acredito que este seja o ponto essencial para desatar alguns nós e tornar a função de netweaver viável.


Augusto de Franco disse:

É... Josué, sua argumentação é verossimilhante, mas distorce a origem histórica de hierarquia. Sagrado significava separado e não algo melhor, sublime, fundante de qualquer coisa constitutiva da humanidade, que supostamente devêssemos preservar! Sim, isso faz toda a diferença.

Num sentido geral aplica-se a palavra hierarquia para designar quaisquer arranjos de itens (objetos, nomes, valores, categorias) nos quais esses itens são representados como estando “acima”, “abaixo”, ou “no mesmo nível” de outro. Em matemática o conceito designa um conjunto ordenado ou um grafo dirigido sem ciclos direcionados (grafo acíclico dirigido, abreviado por DAG - Directed Acyclic Graph). Mas esse é um sentido deslizado do original. O termo surgiu para designar ordens de seres intermediários entre entidades celestes e terrestres (e foi usado, por exemplo, por Pseudo-Dionísio, o Areopagita, no século 5, para designar os coros angélicos).

A palavra hierarquia vem da palavra latina hierarquia que, por sua vez, vem da palavra grega ἱεραρχία (hierarchía), de ἱεράρχης (hierarchēs), aquele que era encarregado de presidir os ritos sagrados: ἱερεύς = hiereus, sacerdote, da raiz ἱερός = hieros, sagrado + ἀρχή = arché, tomada em várias acepções conexas como as de poder, governo, ordem, princípio (organizativo).

A hierarquia é um poder sacerdotal vertical que se instala em uma sociedade instituindo artificialmente a necessidade da intermediação por meio de separações (entre superiores e inferiores). Em geral é representada pela pirâmide (poucos em cima e muitos em baixo) ou pela aranha (que tem uma cabeça e vários braços ou pernas, em oposição a uma estrela-do-mar, que não tem centro de comando e controle). A hierarquia celeste (com seus serafins, querubins, tronos, dominações, potestades, virtudes, principados, arcanjos e anjos) e a hierarquia militar (com generais, coronéis, majores, capitães, tenentes, sargentos, cabos e soldados) são os exemplos mais comuns, paradigmáticos, de hierarquia. Mas qualquer padrão de organização que introduz anisotropias no campo social direcionando fluxos é hierárquico (seja em uma organização estatal, empresarial ou social, religiosa ou laica, militar ou civil). 

Agora, o fato de qualquer pessoa se tornar uma referência ou exercer influência não implica que ela tenha poder (no sentido de poder de mandar nos outros, que é o único sentido relevante de poder do ponto de vista da rede, que é o nosso ponto de vista). Não há como exercer poder sem excluir nodos, eliminar conexões ou separar clusters. Redes (mais distribuídas do que centralizadas) não são modelos alternativos de organização à hierarquias (redes mais centralizadas do que distribuídas): redes são, simplesmente, movimentos de desconstituição de hierarquias.

A confusão (intencional ou não) entre influência e poder (no sentido acima) tem, infelizmente, servido ao propósito de salvar as hierarquias. Mas não se pode salvá-las. Elas são o problema.

Josué de Menezes disse:

Este tema me interessa. Algumas vezes digo que a minha profissão é de: "gestor netweaver". Saber animar uma rede, mapear oportunidades, identificar alianças estratégicas, enfim, disseminar a cultura digital valorizando o empreendedorismo em suas mais variadas facetas, me parece uma contribuição efetiva. Mas este é um enfoque pessoal que estou descobrindo com o tempo, dentro de um exercício sinérgico com o jornalismo, minha profissão de origem. Também sou gestor de projetos e busco aplicar conhecimentos das boas práticas de gestão para alcançar resultados efetivos, mensuráveis. Mas encaro tudo isso como um laboratório. Tenho como hábito estudar a epistemologismo das palavras. Não tenho nenhum problema com hierarquia, considerando que refere-se a ordem sagrada. Grego ἱερός = sacro; e ἀρχή = princípio, início. Latim gero = gerir, fazer[1]. É a capacidade de gerir o(s) princípio(s). Ou seja, mesmo toda a reflexão e análises que negam o ordenamento são proferidos por alguém que torna-se uma referência de um saber. Ou seja, se coloca num lugar que propõe algo novo, que estrutura um ordenamento de pensamento, mesmo tratando-se de uma premissa. Mas tudo isso é uma visão pessoal. Gosto muito das abordagens do Augusto de Franco. Ele navega em mares que estou aprendendo a navegar. Interessante a visão de peregrinos, nômades, viajantes do interworlds. Mas se considerarmos que um peregrino numa rede pode despertar o interesse de alguns seguidores, ou discípulos peregrinos, pronto, já existe uma hierarquia, ou um modelo. Imagine se eu quiser seguir o Augusto de Franco? Se ele é uma referência para mim? Se eu comungar de sua visão de mundo. Pronto, tô fu... Ele mesmo nega seu papel de Mestre. É uma pregação insustentável. Mas realmente admiro o papel de negar e combater a hierarquia. Muito importante este papel. Que ele continue a formar discípulos e seguidores pois, com certeza, são pessoas pensantes que buscam um lugar ao sol. Se não fosse esta reflexão nem estaria escrevendo estas palavras e compartilhando alguma experiência neste campo...

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