Escola de Redes

As escolas contnuam péssimas, as cidades violentas, o trabalho estressante e as pessoas solitárias e doentes. Alguém poderia dar alguma utilidade para estas ditas redes sociais? Milhões de pessoas trotaram "cala a boca Galvão" em poucos minutos. E dai? Ninguém teve a coragem de ir lá falar isso com ele pessoalmente. De Nao serve pra ciência, Nao serve pra estudo, Nao serve pra trabalho, rede social só serve pra fofoca e pra vaidade? Café essa revolução toda???

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Hehe, Eduardo. O estilo da provocação é uma boa oportunidade para dizer:

 

"É o social, estúpido!"

 

Em geral damos de barato que todo mundo já entende o que é sociedade-em-rede.

 

Mas não se pode entender sociedade-em-rede sem entender o que é rede.

 

Três confusões – que a maioria das pessoas faz hoje em dia – dificultam o entendimentos das redes:

 

1)    confundir descentralização com distribuição;

 

2)    confundir participação com interação; e

 

3)    confundir o site da rede com a rede.

 

 

A PRIMEIRA CONFUSÃO

 

Ninguém pode entender o que é rede se não entender a diferença entre descentralização e distribuição.

 

O melhor caminho para entender tal diferença é ler o velho paper On distributed communications, que Paul Baran publicou em 1964.[1] No mencionado paper sugiro espiar diretamente a figura abaixo:

 

Os diagramas de Baran são auto-explicativos. Mas as conseqüências que podemos deles tirar não são.

 

O primeiro corolário relevante é que a conectividade acompanha a distribuição. Inversamente, quanto mais centralizada for uma rede, menos conectividade ela possui.

 

O segundo corolário relevante é que a interatividade acompanha a conectividade e a distributividade. Inversamente, quanto mais centralizada é uma rede, menos interatividade ela possui.

 

Essas leis regem o multiverso das interações (e valem, portanto, para o que chamamos de sociedade-em-rede).

 

Chamamos de redes sociais as redes mais distribuídas do que centralizadas. Redes mais centralizadas do que distribuídas são hierarquias. É uma convenção, mas é uma convenção razoável.

 

 

A SEGUNDA CONFUSÃO

 

Pouca gente se dá conta, mas – no sentido da convenção acima – redes sociais são ambientes de interação, não de participação.

 

Assim, não se pode entender a sociedade em rede sem entender a fenomenologia da interação.

 

O diabo é que, em geral, estamos tão intoxicados pelas ideologias participacionistas do século passado que confundimos participação com interação.

 

Está aí a chamada web 2.0 para não me deixar mentir: tudo lá se resume a gostar, curtir, votar, preferir, adicionar, escrever dentro de uma caixinha e depois clicar em “enviar”. As caixinhas já estão prontas. Quando você clica nelas, guarda um pedaço do passado em algum lugar. E aí, babau! A interação já se perdeu, o fluxo já passou. Em geral só os donos das plataformas têm acesso aos dados que você e todos os outros participantes jogaram nos alçapões que eles construíram. Típico do participacionismo, onde há sempre uma oligarquia com poderes regulatórios aumentativos em relação aos poderes dos “usuários”. Eles podem programar nas plataformas, você não. Argh!

 

Na interação é muito diferente. Nela as coisas acontecem independentemente de nossas intenções de disciplinar o fluxo, guardá-lo, congelá-lo. E nela não dá para gerar artificialmente escassez introduzindo processos de votação ou preferência. Nela não dá para arrebanhar as pessoas em um espaço participativo para depois tentar conduzi-las para ali ou acolá.

 

O participacionismo foi uma espécie de tentativa de salvar do incêndio os esquemas de comando-e-controle. Foi um esforço para ficar fora do abismo da interação. A participação está para a interação mais ou menos como o Creative Commons está para o Domínio Público.

 

Sim, entender a sociedade-em-rede é entender as redes, e entender as redes é entender a fenomenologia da interação.

 

A meu ver as quatro grandes descobertas da nova ciência das redes foram descobertas dos fenômenos associados à interação: o clustering, o swarming, o cloning e o crunching.

 

A primeira grande descoberta é: tudo que interage clusteriza. Quando não entendemos o clustering não deixamos atuar as forças do aglomeramento. Tudo clusteriza, independentemente do conteúdo, em função dos graus de distribuição e conectividade (ou interatividade) da rede social. Ao articular uma organização em rede distribuída não é necessário predeterminar quais serão os departamentos, aquelas caixinhas desenhadas nos organogramas. Estando claro, para os interagentes, qual é o propósito da iniciativa, basta deixar atuar as forças do aglomeramento.

 

A segunda grande descoberta é: tudo que interage pode enxamear. Quando não entendemos o swarming não deixamos o enxameamento agir. Swarming (ou swarming behavior) e suas variantes como herding e shoaling, não acontecem somente com pássaros ou com outros animais, como insetos, formigas, abelhas, mamíferos e peixes. Em termos genéricos esses movimentos coletivos (também chamados de flocking) ocorrem quando um grande número de entidades self-propelled interagem. E algum tipo de inteligência coletiva (swarm intelligence) está sempre envolvido nesses movimentos. Mas isso também ocorre com humanos, quando multidões se aglomeram (clustering) e “evoluem” sincronizadamente sem condução alguma (nem pelas ordens brutas dos esquemas de comando-e-controle, nem pela doce indução inerente aos processos participativos). Sem condução exercida por algum líder, quando muitas pessoas enxameiam provocam grandes mobilizações. Sem convocação ou coordenação centralizada (como ocorreu em Madri em março de 2004 ou, mais recentemente, na Praça Tahir, no Cairo, em 11 de fevereiro de 2011).

 

A terceira grande descoberta é: a imitação é uma clonagem. Quando não entendemos o cloning não deixamos a imitação exercer o seu papel. Como pessoas – gholas sociais –, todos somos clones na medida em que culturalmente formados como réplicas variantes (embora únicas) de configurações das redes sociais onde estamos emaranhados. O termo clone deriva da palavra grega klónos, usada para designar “tronco” ou “ramo”, referindo-se ao processo pelo qual uma nova planta pode ser criada a partir de um galho. Mas é isso mesmo. A nova planta imita a velha. A vida imita a vida. A convivência imita a convivência. A pessoa imita o social.

 

Sem imitação não poderia haver ordem emergente nas sociedades humanas ou em coletivo algum capaz de interagir. Sem imitação os cupins não conseguiriam construir seus maravilhosos cupinzeiros. Sem imitação, os pássaros não voariam em bando, configurando formas geométricas tão surpreendentes e fazendo aquelas evoluções fantásticas.

 

Quando tentamos orientar as pessoas sobre o quê – e como, e quando, e onde – elas devem aprender, nós é que estamos, na verdade, tentando replicar, reproduzir borgs: queremos seres que repetem. Quando deixamos as pessoas imitarem umas as outras, não replicamos; pelo contrário, ensejamos a formação de gholas sociais. Como seres humanos somos seres imitadores.

 

Nada a ver com conteúdo. Nos mundos altamente conectados o cloning tente a auto-organizar boa parte das coisas que nos esforçamos por organizar inventando complicados processos e métodos de gestão. Mesmo porque tudo isso vira lixo na medida em que os mundos começam a se contrair sob efeito de crunching.

 

A quarta grande descoberta: small is powerful. Quando não entendemos o crunching não deixamos os mundos se contraírem. Essa talvez seja a mais surpreendente descoberta-fluzz de todos os tempos. Em outras palavras, isso (small is powerful) quer dizer que o social reinventa o poder. No lugar do poder de mandar nos outros, surge o poder de encorajá-los (e encorajar-se): empowerment! Você deve estar se perguntando: mas o que é fluzz? Ora, fluzz é empowerfulness.

 

Quando aumenta a interatividade é porque os graus de conectividade e distribuição da rede social aumentaram; ou, dizendo de outro modo, é porque os graus de separação diminuíram: o mundo social se contraiu (crunch). Os graus de separação não estão apenas diminuindo: eles estão despencando. Estamos agora sob o efeito desse amassamento (Small-World Phenomenon).

 

Outra vez: nada a ver com conteúdo. Tudo que interage tende a se emaranhar mais e a se aproximar, diminuindo o tamanho social do mundo. Quanto menores os graus de separação do emaranhado em que você vive como pessoa, mais empoderado por ele (por esse emaranhado) você será. Mais alternativas de futuro terá à sua disposição.

 

A esta altura, você, leitor deste artigo, pode estar se perguntando: mas esse cara – falando coisas tão estranhas... – será que não veio de Marte? E eu já respondo. Se você não sabe essas coisas poderia viver tranquilamente em Marte, mas não na bio-antroposfera deste planeta Terra. Porque em Marte não tem nada disso (presume-se). Mas aqui é assim, desde que existem vida e convivência social.

 

A TERCEIRA CONFUSÃO

 

A terceira confusão que dificulta o entendimento das redes é a confusão do site da rede (a mídia) com a rede. Redes sociais existem desde que existe sociedade humana, quer dizer, pessoas interagindo (segundo a nossa convenção, interagindo em um padrão mais distribuído do que centralizado).

 

Pessoas podem interagir usando diferentes mídias: por gestos ou sinais ou conversando presencialmente, por tambores (como faziam os pigmeus) e sinais de fumaça (como faziam os Apaches), por cartas escritas em papel e levadas a cavalo (como foi feito no chamado Network da Filadélfia, que escreveu a várias mãos a Declaração de Independência dos Estados Unidos), por telefone fixo ou móvel (inclusive por SMS – e isso pode levar a verdadeiros swarmings, como ocorreu em Madri em março de 2004 ou na Praça Tahir, no Cairo, em fevereiro de 2011) e... por sites de relacionamento na Internet (como o Orkut, o Facebook e o Twitter) ou por plataformas desenhadas para a interação (como o Ning, o Grou.ps, o Grouply, o Elgg, o WP Buddy – ainda que, na verdade, tais plataformas tenham sido desenhadas mais para a participação do que para a interação).

 

Ao confundir o site da rede com a rede estamos dizendo que não existe rede (uma realidade social) se não houver o site (um artefato digital). Ora, isso é um absurdo. Não é o digital o responsável pela manifestação da fenomenologia da interação: “É o social, estúpido!”.



[1] BARAN, Paul. On distributed communications. Santa Mônica: Rand Corporation, 1964.

 

Acredito que as plataformas das redes sociais vão provocar revoluções principalmente porque, utilizado-as, temos vários “vendedores de sonhos”:
“Vendedor de sonhos / tenho a profissão viajante / de caixeiro que traz na bagagem / repertório de vida e canções / E de esperança / mais teimoso que uma criança / eu invado os quartos, as salas / as janelas e os corações / Frases eu invento / elas voam sem rumo no vento / procurando lugar e momento / onde alguém também queira cantá-las / Vendo os meus sonhos / e em troca da fé ambulante / quero ter no final da viagem / um caminho de pedra feliz / Tantos anos contando a história / de amor ao lugar que nasci / tantos anos cantando meu tempo / minha gente de fé me sorri / tantos anos de voz nas estradas / tantos sonhos que eu já vivi.” Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant

Edgar Morin é um pensador vigoroso . Há tempos que me encanto com sua tenacidade, comprando os sonhos que vende:
“Não posso abrir mão da curiosidade, da vontade de corrigir o que está errado no mundo. Procuro manter o senso de humor, o bom humor e o amor pela vida”.
“Precisamos fazer a crítica das utopias de um mundo perfeito, mas também precisamos fazer a crítica do fatalismo realista. Penso que é necessário abandonar a idéia do melhor dos mundos e partir para a busca de um mundo melhor”.
Vejam uma entrevista que concedeu recentemente:
http://sul21.com.br/jornal/2011/08/contra-utopias-e-fatalismo-edgar...

Não era provocação, era dúvida.

As redes sociais não se enquadram em gabaritos lógicos.

Continuo discordando da aplicação dos diagramas de Baran para descrever redes sociais. É ótimo para redes de computadores e transmissão de dados que nao sofrem alteração de significado como nas redes humanas.

Explicar redes sociais centralizadas ou distribuidas me parece um esforço acadêmico  para tentar colocar um filme num porta retrato (só funciona explicando quadro a quadro)...

 

Augusto de Franco disse:

Hehe, Eduardo. O estilo da provocação é uma boa oportunidade para dizer:

 

"É o social, estúpido!"

 

Em geral damos de barato que todo mundo já entende o que é sociedade-em-rede.

 

Mas não se pode entender sociedade-em-rede sem entender o que é rede.

 

Três confusões – que a maioria das pessoas faz hoje em dia – dificultam o entendimentos das redes:

 

1)    confundir descentralização com distribuição;

 

2)    confundir participação com interação; e

 

3)    confundir o site da rede com a rede.

 

 

A PRIMEIRA CONFUSÃO

 

Ninguém pode entender o que é rede se não entender a diferença entre descentralização e distribuição.

 

O melhor caminho para entender tal diferença é ler o velho paper On distributed communications, que Paul Baran publicou em 1964.[1] No mencionado paper sugiro espiar diretamente a figura abaixo:

 

Os diagramas de Baran são auto-explicativos. Mas as conseqüências que podemos deles tirar não são.

 

O primeiro corolário relevante é que a conectividade acompanha a distribuição. Inversamente, quanto mais centralizada for uma rede, menos conectividade ela possui.

 

O segundo corolário relevante é que a interatividade acompanha a conectividade e a distributividade. Inversamente, quanto mais centralizada é uma rede, menos interatividade ela possui.

 

Essas leis regem o multiverso das interações (e valem, portanto, para o que chamamos de sociedade-em-rede).

 

Chamamos de redes sociais as redes mais distribuídas do que centralizadas. Redes mais centralizadas do que distribuídas são hierarquias. É uma convenção, mas é uma convenção razoável.

 

 

A SEGUNDA CONFUSÃO

 

Pouca gente se dá conta, mas – no sentido da convenção acima – redes sociais são ambientes de interação, não de participação.

 

Assim, não se pode entender a sociedade em rede sem entender a fenomenologia da interação.

 

O diabo é que, em geral, estamos tão intoxicados pelas ideologias participacionistas do século passado que confundimos participação com interação.

 

Está aí a chamada web 2.0 para não me deixar mentir: tudo lá se resume a gostar, curtir, votar, preferir, adicionar, escrever dentro de uma caixinha e depois clicar em “enviar”. As caixinhas já estão prontas. Quando você clica nelas, guarda um pedaço do passado em algum lugar. E aí, babau! A interação já se perdeu, o fluxo já passou. Em geral só os donos das plataformas têm acesso aos dados que você e todos os outros participantes jogaram nos alçapões que eles construíram. Típico do participacionismo, onde há sempre uma oligarquia com poderes regulatórios aumentativos em relação aos poderes dos “usuários”. Eles podem programar nas plataformas, você não. Argh!

 

Na interação é muito diferente. Nela as coisas acontecem independentemente de nossas intenções de disciplinar o fluxo, guardá-lo, congelá-lo. E nela não dá para gerar artificialmente escassez introduzindo processos de votação ou preferência. Nela não dá para arrebanhar as pessoas em um espaço participativo para depois tentar conduzi-las para ali ou acolá.

 

O participacionismo foi uma espécie de tentativa de salvar do incêndio os esquemas de comando-e-controle. Foi um esforço para ficar fora do abismo da interação. A participação está para a interação mais ou menos como o Creative Commons está para o Domínio Público.

 

Sim, entender a sociedade-em-rede é entender as redes, e entender as redes é entender a fenomenologia da interação.

 

A meu ver as quatro grandes descobertas da nova ciência das redes foram descobertas dos fenômenos associados à interação: o clustering, o swarming, o cloning e o crunching.

 

A primeira grande descoberta é: tudo que interage clusteriza. Quando não entendemos o clustering não deixamos atuar as forças do aglomeramento. Tudo clusteriza, independentemente do conteúdo, em função dos graus de distribuição e conectividade (ou interatividade) da rede social. Ao articular uma organização em rede distribuída não é necessário predeterminar quais serão os departamentos, aquelas caixinhas desenhadas nos organogramas. Estando claro, para os interagentes, qual é o propósito da iniciativa, basta deixar atuar as forças do aglomeramento.

 

A segunda grande descoberta é: tudo que interage pode enxamear. Quando não entendemos o swarming não deixamos o enxameamento agir. Swarming (ou swarming behavior) e suas variantes como herding e shoaling, não acontecem somente com pássaros ou com outros animais, como insetos, formigas, abelhas, mamíferos e peixes. Em termos genéricos esses movimentos coletivos (também chamados de flocking) ocorrem quando um grande número de entidades self-propelled interagem. E algum tipo de inteligência coletiva (swarm intelligence) está sempre envolvido nesses movimentos. Mas isso também ocorre com humanos, quando multidões se aglomeram (clustering) e “evoluem” sincronizadamente sem condução alguma (nem pelas ordens brutas dos esquemas de comando-e-controle, nem pela doce indução inerente aos processos participativos). Sem condução exercida por algum líder, quando muitas pessoas enxameiam provocam grandes mobilizações. Sem convocação ou coordenação centralizada (como ocorreu em Madri em março de 2004 ou, mais recentemente, na Praça Tahir, no Cairo, em 11 de fevereiro de 2011).

 

A terceira grande descoberta é: a imitação é uma clonagem. Quando não entendemos o cloning não deixamos a imitação exercer o seu papel. Como pessoas – gholas sociais –, todos somos clones na medida em que culturalmente formados como réplicas variantes (embora únicas) de configurações das redes sociais onde estamos emaranhados. O termo clone deriva da palavra grega klónos, usada para designar “tronco” ou “ramo”, referindo-se ao processo pelo qual uma nova planta pode ser criada a partir de um galho. Mas é isso mesmo. A nova planta imita a velha. A vida imita a vida. A convivência imita a convivência. A pessoa imita o social.

 

Sem imitação não poderia haver ordem emergente nas sociedades humanas ou em coletivo algum capaz de interagir. Sem imitação os cupins não conseguiriam construir seus maravilhosos cupinzeiros. Sem imitação, os pássaros não voariam em bando, configurando formas geométricas tão surpreendentes e fazendo aquelas evoluções fantásticas.

 

Quando tentamos orientar as pessoas sobre o quê – e como, e quando, e onde – elas devem aprender, nós é que estamos, na verdade, tentando replicar, reproduzir borgs: queremos seres que repetem. Quando deixamos as pessoas imitarem umas as outras, não replicamos; pelo contrário, ensejamos a formação de gholas sociais. Como seres humanos somos seres imitadores.

 

Nada a ver com conteúdo. Nos mundos altamente conectados o cloning tente a auto-organizar boa parte das coisas que nos esforçamos por organizar inventando complicados processos e métodos de gestão. Mesmo porque tudo isso vira lixo na medida em que os mundos começam a se contrair sob efeito de crunching.

 

A quarta grande descoberta: small is powerful. Quando não entendemos o crunching não deixamos os mundos se contraírem. Essa talvez seja a mais surpreendente descoberta-fluzz de todos os tempos. Em outras palavras, isso (small is powerful) quer dizer que o social reinventa o poder. No lugar do poder de mandar nos outros, surge o poder de encorajá-los (e encorajar-se): empowerment! Você deve estar se perguntando: mas o que é fluzz? Ora, fluzz é empowerfulness.

 

Quando aumenta a interatividade é porque os graus de conectividade e distribuição da rede social aumentaram; ou, dizendo de outro modo, é porque os graus de separação diminuíram: o mundo social se contraiu (crunch). Os graus de separação não estão apenas diminuindo: eles estão despencando. Estamos agora sob o efeito desse amassamento (Small-World Phenomenon).

 

Outra vez: nada a ver com conteúdo. Tudo que interage tende a se emaranhar mais e a se aproximar, diminuindo o tamanho social do mundo. Quanto menores os graus de separação do emaranhado em que você vive como pessoa, mais empoderado por ele (por esse emaranhado) você será. Mais alternativas de futuro terá à sua disposição.

 

A esta altura, você, leitor deste artigo, pode estar se perguntando: mas esse cara – falando coisas tão estranhas... – será que não veio de Marte? E eu já respondo. Se você não sabe essas coisas poderia viver tranquilamente em Marte, mas não na bio-antroposfera deste planeta Terra. Porque em Marte não tem nada disso (presume-se). Mas aqui é assim, desde que existem vida e convivência social.

 

A TERCEIRA CONFUSÃO

 

A terceira confusão que dificulta o entendimento das redes é a confusão do site da rede (a mídia) com a rede. Redes sociais existem desde que existe sociedade humana, quer dizer, pessoas interagindo (segundo a nossa convenção, interagindo em um padrão mais distribuído do que centralizado).

 

Pessoas podem interagir usando diferentes mídias: por gestos ou sinais ou conversando presencialmente, por tambores (como faziam os pigmeus) e sinais de fumaça (como faziam os Apaches), por cartas escritas em papel e levadas a cavalo (como foi feito no chamado Network da Filadélfia, que escreveu a várias mãos a Declaração de Independência dos Estados Unidos), por telefone fixo ou móvel (inclusive por SMS – e isso pode levar a verdadeiros swarmings, como ocorreu em Madri em março de 2004 ou na Praça Tahir, no Cairo, em fevereiro de 2011) e... por sites de relacionamento na Internet (como o Orkut, o Facebook e o Twitter) ou por plataformas desenhadas para a interação (como o Ning, o Grou.ps, o Grouply, o Elgg, o WP Buddy – ainda que, na verdade, tais plataformas tenham sido desenhadas mais para a participação do que para a interação).

 

Ao confundir o site da rede com a rede estamos dizendo que não existe rede (uma realidade social) se não houver o site (um artefato digital). Ora, isso é um absurdo. Não é o digital o responsável pela manifestação da fenomenologia da interação: “É o social, estúpido!”.



[1] BARAN, Paul. On distributed communications. Santa Mônica: Rand Corporation, 1964.

 

Usei a palavra "provocação" num sentido positivo, Eduardo. De qualquer modo, o essencial do meu comentário acima não são os diagramas de Baran e sim as três diferenças: entre descentralização e distribuição, entre participação e interação e entre midias sociais e redes sociais. Sua pergunta confundia evidentemente redes sociais com mídias sociais. 

Mas... o comportamento das redes não tem a ver com significado (se entendermos por isso algum conteúdo transmitido-recebido ou atribuído-interpretado). Ao que tudo indica, depende do padrão de interação (e isso é função da topologia, não importa se os interagentes sejam formigas ou seres humanos). Essa descoberta não é resultado de um esforço acadêmico (em sentido pejorativo, como algo que se faz a revelia do que ocorre na vida cotidiana das interações entre humanos) e sim de um esforço de investigação (não importa se realizado na academia, num centro de pesquisa ou numa casinha de sapé, por mim no alto da Mantiqueira ou por você no Belo Horizonte).

Por certo nem todas as redes são sociais, mas redes sociais não deixam de ser redes e de manifestar a fenomenologia da interação que lhe é própria (das redes), quando seus nodos são humanos. Redes sociais se comportam de maneira diferente das demais redes do ponto de vista dos sujeitos interagentes, mas não do ponto de vista do comportamento geral ou sistêmico de configurações de fluxos regidos pela interação.

Aliás, o conceito de humano tomado com precedência ontológica (se se pode dizer assim) em relação ao social revela uma compreensão congruente com a pergunta que você fez, Eduardo, e com a forma como você a fez (ou como expressou sua dúvida). Se partirmos da idéia de que não pode existir o humano (propriamente dito) sem o social, muda tudo. A meu ver.

A possibilidade humana de se comunicar, de compartilhar significados e de se mobilizar para mudança é a grande conquista da era digital.

A existência de plataformas digitais ou netclubes variados que acolhem inscrições para diversos conteúdos é uma realidade.

Mas a estupidez humana tomou proporções digitais também. Continuamos com os armários cheios de caixas de remédios (que insistem em contrariar as quantidades indicadas pelos médicos ) esperando a data de validade para ir para o lixo. Não aplicamos a tal genialidade humana para compartilhar. Não temos  sites para doar remedios, roupas, equipamentos ou ferramentas para pessoas que possam fazer bom uso. Não conseguimos compartilhar as bandas de internet nem com os vizinhos do prédio. (Cada um com a sua).

Não compartilhamos as bicicletas e esteiras ergometricas em nossos edificios. Nem as bonecas, video games ou aulas de ingles para os nossos filhos. Redes sociais pra mim são redes sociais. Que cuidam reciprocamente dos significados sociais. Sei que a questão é semântica mas batizaram errado este movimento digital. Pode ser rede digital, rede virtual, rede de contatos... Só não dá pra ser Rede Social. Ja que se discute tudo sobre redes sociais que tal discutir a mudança do nome?

A expressão 'rede social' desvela a configuração do emaranhado em que existimos, os humanos. A realidade designada continuará existindo independentemente de acharmos para ela alguma utilidade. Não me parece um bom critério epistemológico perguntar pela utilidade de uma coisa. A coisa, no caso, não é a plataforma digital ou o que você chama de "movimento digital" e sim a sociedade. Por isso disse que sua pergunta confundia a mídia social com a rede social. A julgar pelo comentário acima, você continua confundindo.

A estupidez humana (um direito humano fundamental, hehe), não tem a ver com o conceito de 'rede social'. Nem com a realidade a que esse conceito se refere (o que chamamos propriamente de 'social'). Aliás, uma rápida olhada sobre a nossa história dita "civilizada" revela que as coisas mais estúpidas que fizemos nos últimos seis milênios estão sempre associadas à não-rede, quer dizer, à obstrução de fluxos, a separação de clusters e a eliminação de nodos. As manifestações egóicas, que você cita no seu último comentário, por exemplo, são a melhor evidência disso. São, como diria nosso amigo Maturana, manifestações anti-sociais (e entendo por isso resultados de intervenções que alteram a estrutura e a dinâmica do que seria uma rede social na ausência de programas verticalizadores).

Mas fico com a impressão de que não estamos realmente conversando. A cada comentário você aduz um novo argumento ou evidência para corroborar o texto original que postou como estímulo à discussão. Você disse que era uma dúvida, mas não parece. Parece mais uma convicção que você já formou, já sabe, como se tudo fosse tão evidente por si mesmo a ponto de dispensar a conversação.

Me parece mesmo que nesse momento não há uma interação dialógica. E se me permitem integrar esse conjunto de reflexões, gostaria de fazer algumas colocações sobre sua argumentação, Eduardo. Não há na sua fala uma pretensa referência onisciente? Que universaliza os problemas da humanidade à luz da sua observação? Compartilho com seus anseios de uma sociedade mais solidária, mas isso não quer dizer que a cultura em que estamos imersos - e da qual emergiram os problemas que você distingue nas mídias sociais e nos relacionamentos - seja a referência para se discutir a substituição de uma expressão (rede social) simplesmente pelo fato de seu significado não se construir em seu olhar de observador.
A realidade emerge das experiências de cada um. Experimentar as delícias de viver interações produtivas, diálogos gerativos e construções coletivas têm renovado a cada dia, as minhas crenças nas formação (ou resgate) de Redes Sociais, muitas vezes obscurecidas por aquilo que distingo como um grande apelo midiático individualista e de controle. Mas esse fantasma midiático me aflige muito mais quando vivo de forma espectadora esse modelo. Quando se vive experiências em rede, outras realidades emergem em seu olhar de observador.
Minhas utopias Silvia (obrigado pela magia da arte de Brant e Milton) estão em meu presente cambiante contínuo. Esse futuro que é uma mera criação do agora me dá uma boa fome, mas que gosto de comer no presente.
Augusto, em outro momento quero ter a oportunidade de fazer uma reflexão epistemológica sobre a maravilhosa contribuição que você tem me dado - e também às redes da qual faço parte. Muitas dessas contribuções profundamente libertadoras, mas que também trazem importantes incômodos, distingo aqui por exemplo, as dicotomias.
Alguem pode me dar exemplos de aplicaçao util de redes sociais para solucionar desconfortos do ser humano na vida social? Vivemos recebendo convites, propostas e filosofias tentando promover inovações, debates, TEDs e conferências tematicas. Fizeram um levantamento de todas as ONG que se propõem a ajudar crianças carentes em Belo Horizonte. Somando o orçamento de todas e dividindo pelo numero de criancas carentes da mais de 2 mil dolares por crianca por mes. Se dessem essa grana pra cada uma elas deixariam de ser carentes e seriam de classe media alta... Que tal uma rede social pra coletar sobras de remedios em nossas casas ou para compartilhar brinquedos, livros e veiculos nos predios ruas e condominios? A "festa de inauguração" das poderosas "redes sociais" digitalizadas ja deveria ter acabado. Não estaria na hora de usar os neuronios pensantes para discutir cases, resultados e melhores praticas? O mundo ta acabando e nao da mais pra ficar esperando a academia discutir se o problema é real ou não ou se a rede deve ser centralizada pu não.

Carlos Mourthe disse:
Me parece mesmo que nesse momento não há uma interação dialógica. E se me permitem integrar esse conjunto de reflexões, gostaria de fazer algumas colocações sobre sua argumentação, Eduardo. Não há na sua fala uma pretensa referência onisciente? Que universaliza os problemas da humanidade à luz da sua observação? Compartilho com seus anseios de uma sociedade mais solidária, mas isso não quer dizer que a cultura em que estamos imersos - e da qual emergiram os problemas que você distingue nas mídias sociais e nos relacionamentos - seja a referência para se discutir a substituição de uma expressão (rede social) simplesmente pelo fato de seu significado não se construir em seu olhar de observador. A realidade emerge das experiências de cada um. Experimentar as delícias de viver interações produtivas, diálogos gerativos e construções coletivas têm renovado a cada dia, as minhas crenças nas formação (ou resgate) de Redes Sociais, muitas vezes obscurecidas por aquilo que distingo como um grande apelo midiático individualista e de controle. Mas esse fantasma midiático me aflige muito mais quando vivo de forma espectadora esse modelo. Quando se vive experiências em rede, outras realidades emergem em seu olhar de observador. Minhas utopias Silvia (obrigado pela magia da arte de Brant e Milton) estão em meu presente cambiante contínuo. Esse futuro que é uma mera criação do agora me dá uma boa fome, mas que gosto de comer no presente.
Augusto, em outro momento quero ter a oportunidade de fazer uma reflexão epistemológica sobre a maravilhosa contribuição que você tem me dado - e também às redes da qual faço parte. Muitas dessas contribuções profundamente libertadoras, mas que também trazem importantes incômodos, distingo aqui por exemplo, as dicotomias.

Sugiro que veja meu tópico sobre uma rede social criada para o fortalecimento de in.... Estamos ainda engatinhando enquanto rede, mas as pessoas que a compõem já somam décadas de luta pela educação popular, e eventualmente trabalhando em redes - ainda que não as virtuais.

Ainda esse ano teremos algo mais sólido e sistematizado para lhes repassar! Por enquanto, fica a dica de conhecer o site da Rede Brasil de Bibliotecas Comunitárias - http://rbbconexoes.ning.com/.

Abraços,

 

Abraão

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