Escola de Redes

Pensamentos esparsos sobre a dinâmica dos fluxos e origem da hierarquia

Desde que comecei a tomar contato com a nova ciência das redes (e principalmente, com os textos do nosso querido Augusto de Franco) várias questões passavam pela minha cabeça mas ficavam mal resolvidas. Algumas cheguei mesmo a postar na E=R, mas várias delas não tiveram interação suficiente para desfazer o nó, não me convenceram no momento. Talvez porque o meio virtual ainda é só uma potência do que pode ser, bem diferente de todas as nuances de um contato pessoa-a-pessoa. Tbm cheguei a pensar que existem coisas que ficam assim mesmo, sem estarem resolvidas da maneira como queremos, mas fluindo independente de nossas convicções. Hoje, volto em alguns pontos, retocando e aprofundando alguns conceitos, mas retorno porque muitos destes pensamentos tomaram sentidos interessantes, os quais gostaria de compartilhar com todos. Com certeza,  são pensamentos inacabados, apenas nuances de fluxos captados, os quais acho que podem se enriquecer bastante se em interação com todos.



I - Sobre a natureza das topologias no espaço-tempo dos fluxos


Redes são dinâmicas. Ou seja, desde que nós não ergamos muros ou criemos quadrados que deformem e condicionem sua topologia, as redes são essencialmente livres (e penso que exista um comportamento natural das redes - ou da rede-mãe - que é tender à 100% de distribuição, o que abordarei de outras maneiras no decorrer deste texto).

Esta liberdade de ação, de movimento, permite que as redes assumam configurações que são todas as topologias possíveis, pois de outra forma, contrariaria o próprio sentido livre das redes. Ou seja, uma rede essencialmente livre ela é centralizada, multicentralizada e distribuída ao mesmo tempo, e nós vivemos e somos parte dela. Isso ocorre, porque dentro desta dinâmica, ela possui momentos em que assume outras topologias, mesmo que não sejam as mais distribuídas, ou seja, temos algum tipo de evento cuja gravidade gera algum nível de centralização (pode-ser ler incluindo muti-centralização daqui em diante). Gostaria de exemplificar isso de algumas formas, ainda que toscas:


1) O meteoro como o que caiu na Rússia atraiu toda a atenção para ele. Isso nos dá idéia de centralização pois toda aquela comunidade teve praticamente toda sua atenção focada ao fenômeno. A atenção à centralização gerada pode ter deixado de várias pessoas terem outras experiências se não estivessem focadas ali.


2) Se uma mulher exuberante entra num restaurante, é evidente que ela irá chamar atenção de muita gente lá dentro, criando uma centralização pela atração que exerce. Se uma pessoa passar na frente, por um motivo qualquer, ele gera uma OBSTRUÇÃO ao bloquear espontaneamente (e de forma imprevisível) ao acesso visual àquela pessoa.


3) Existem momentos em que queremos gerar centralização, não para exercer mando-controle e cercear a liberdade do outro, mas para que todos que sejam tocados por algum evento tenham o máximo de aproveitamento. Por exemplo, ao organizar uma apresentação artística, num palco ou numa praça, nós podemos inclusive pensar em como atrair a atenção da maioria, e isso significa gerar uma forma de centralização na topologia local.


4) A gravidade, a menos que possamos postular um entedimento diferente (e porque não? eu mesmo já tentei...rs), é uma força de natureza centralizadora, responsável inclusive em manter a vida. Ela está no universo, no globo que pisamos, no corpo que habitamos (o que faz que em cada lugar onde se faz presente, gere multi-centralizações). Penso que podemos inclusive associar o conceito de gravidade com várias dinâmicas das redes sociais, até porque entendo que forças físicas naturais influenciam o comportamento humano.


Percebe-se que existe, portanto, momentos de fluição em que a rede assume topologias mais centralizadas que distribuídas, inclusive dentro de campos que estão além da nuvem social humana, ou seja, em fenômenos físicos, biológicos, naturais. Tudo bem, sei que usar fenômenos físicos e biológicos para o social humano é algo que, a princípio, não se aplica, mas além de só querer usar o exemplo topológico em questão para visualizarmos centralizações da rede, temos tanto dinâmicas sociais, quanto dinâmicas físicas ou biológicas que afetam a social, ou seja, de alguma forma nos afetam e interagem conosco, afetando a nuvem social humana.

Particularmente, eu acredito em um universo imprevisível, dinâmico, em construção, que se articula no improviso, e é fractal. E fractal não só no espaço, como também no tempo, e extendo ainda à própria nuvem social humana. Por isso, acho muito congruente a idéia de que, mesmo que só a título de amostragem ou exemplo (pois estou longe de dizer que as relações humanas de qualquer forma se espelham ou são consequência de uma força cósmica, sobrenatural ou universal), imagens do coisas não humanas de alguma forma fractalizam-se nas humanas, e vice-versa (por mais paradoxal que as vezes isso possa se  mostrar). Se estamos falando de redes, gostaria primeiro de levar isso além do sentido social, mas da própria dinâmica da vida e do universo. E sim, ao analisarmos isso estritamente do ponto de vista social, perceber quais elementos novos entram no jogo desta dinâmica influenciando a essência livre da rede-mãe, com o fim de exercitar novas visões sobre uma relação que sempre pareceu ser necessária de que toda centralização gerar hierarquia (no sentido original, ou do comportamento sacerdotal).


Fica evidente que existam, portanto, fenômenos tanto naturais quanto sócio-culturais que criam topologias mais centralizadas que distribuídas, e penso que isso não é um problema na rede, mas parte natural de sua própria dinâmica.


É interessante a tendência que possuímos de pensar que, se uma rede é essencialmente livre em suas interações, independente do efeito da vontade humana, ela deveria ser sempre distribuída, uma vez que a idéia de centralização (quase sempre entendida também como hierarquia) inibiria a sua liberdade. Meu medo é criar algum tipo de preconceito à topologias mais centralizadas que distribuídas, ou ainda para topologias multi-centralizadas, que dificulte ou trave o entendimento de sua dinâmica natural. Penso que elas ocorrem naturalmente, em redes “naturais” e “sociais”, inclusive sem o exercício direto de nossa vontade. Senão caímos numa especie de luta de bem contra o mal sem pé nem cabeça.


A questão que fica é o que acontece e como reage o comportamento humano quando este se encontra em topologias mais centralizadas. E temos que elas podem surgir espontaneamente ou naturalmente, ou ainda podem surgir por vontade dirigida, ou seja, artificialmente. E ainda, estas topologias podem nos influenciar tendo sua origem no meio (do ponto de vista natural e físico) ou origem social (humano), pois deve ser muito semelhante a reação de uma pessoa comparando como se comportaria diante de um tornado destruindo sua cidade e pondo em risco sua própria vida, com a possibilidade de estar diante de alguém atirando com uma metralhadora dentro do cinema.


Mas fixando-nos sobre as topologias criadas artificalmente (de forma que não seja espontânea) esta topologia (se envenenada com um comportamento hierarquizante) tende a exercer uma influência que passa a ser improdutiva do ponto de vista das redes, ou seja, inibe a liberdade do fluxo (inclusive de se centralizar espontaneamente de acordo com sua dinâmica) e a colaboração entre os indivíduos.

É importante destacar que estas infinitas topologias possíveis de acordo com suas interações refletem apenas instantes captados na dinâmica da rede. A rede não é algo que começou ou vai terminar, que existiu ontem de determinada maneira, hoje está de um jeito caminhando para outro amanhã. Não. A rede ela está em todo lugar e em todo tempo. Nosso limite de percepção do tempo é que nos conduz à idéia errônea de que a rede é o instante topológico que percebemos. Pegando carona em algumas abstrações que a física quântica nos tem dado abertura a criar, imaginem que nossa percepção do tempo-espaço é o instante de uma foto, ou seja, do abrir e fechar da objetiva de uma câmera fotográfica. Para nós, que captamos somente um instante no espaço-tempo dos fluxos, a realidade é aquele momento apenas, e o que vemos, é algo singular, fixo no espaço-tempo. Porém, imaginem que para uma percepção mais expandida, ou até mesmo infinita, seria como se a câmera permanecesse com a objetiva aberta. Neste caso, nesta “foto”, o que veríamos? Veríamos todo o passado, o presente e o futuro existindo ao mesmo tempo, participando do mesmo instante. Nós, mesmo antes de nascermos e mesmo depois de morrermos, continuaríamos presentes naquele mesmo instante. E, além desta percepção, imaginem que todo aquele fluxo fotografado, é inter-dependente quanto seus nodos, que estão se influenciando e alterando a todo “momento”. Ou seja, o que tendemos a chamar erroneamente de passado, presente e futuro estão se alterando a todo instante, um influenciando a realidade do outro. O que vemos, portanto, é uma verdadeira metamorfose ambulante.


Sendo assim, acho que podemos afirmar que na rede se encontram não somente todas as topologias possíveis como algo que é NATURAL de sua própria dinâmica, mas que também nesta nuvem de fluxo temos todos os espaços e tempos reais ocorrendo neste momento e se inter-influenciando de forma inter-dependente. E real, como bem dizia Hakim Bey, inclui o imaginário, uma vez que ele é real o bastante para aqueles que o sentem.


O que não nos permite acessar todos os espaços-tempos é um tema interessante para uma outra discussão, incluindo se isso seria realmente possível, e se o fato de estarmos uniques em nossos corpos cria o paradoxo que nos limita a este acesso. Enquanto isso, creio que o único momento que existe é o presente, o que por si só, vivê-lo já é uma dádiva.


Penso que, diante deste entendimento, pouco importa a topologia que se forma no fluxo das redes, inclusive se ela se tornar mais centralizada que distribuída, justamente, porque ela está em fluxo, não será constante, está em permanente mudança. Pouco importa a topologia da rede.



II - O que importa?


O que importa, é se criamos topologias artificiais e ficamos querendo que elas permaneçam, tal como uma gerência de poder. Forçar uma permanência topológica é algo que contraria a dinamica livre das redes, criando deformações no fluxo. E neste ponto é onde acredito que se encaixa toda argumentação do Augusto de Franco perfeitamente, ou seja, em estruturas multi-centralizadas geradas artificialmente que investem energia em sua permanência para a manutenção de poder sobre sua rede de influência. Entendo que nos estudos do Augusto, a palavra hierarquia só tem sentido neste sentido, pois se levarmos isso para a dinâmica das fluições no espaço-tempo, a hierarquia não é uma consequencia da topologia. Mais ainda, descubro que hierarquia, neste sentido, não é algo natural, de origem cósmica, universal, biológica ou o que for, mas sim, uma (doente) criação social humana.


Em outras palavras, para haver hierarquia é necessária a centralização, mas isso não quer dizer que toda centralização conduz à hierarquia. Me parece que na origem da hierarquia, há algo além do hardware, há sim, um vírus no software.



III - Sobre Neo’s


Sim, a topologia influencia o nosso comportamento de uma maneira esmagadora. Mas existem aqueles que conseguem não ser influenciados por ela, e muitas vezes, pelo contrário, se comportam de maneira a descontruir a hierarquia existente.


Tais pessoas formam bolhas espontâneas na hierarquia. Mas o que me intriga, é como alguém, ainda que vivendo dentro de uma hierarquia esmagadora, consegue sair da influência de seus tentáculos, como se a topologia, o comportamento externo da sua rede social mais próxima, deixasse de influenciá-lo...


E se alguém conseguiu não estar mais sob influência da rede externa (ou pelo menos, diminuindo consideravelmente a influência deste sobre si mesmo), que diferença a topologia faz a essas pessoas? Talvez, talvez, nesta bolha, veríamos todos os cargos e líderes hierárquicos se recontextualizando em funções emergentes da rede, tal como hubs, netweavers, inovadores etc.


Se uns poucos desses anti-virus (antídoto para um vírus da hierarquia) que surgem - não sei como - no ambiente social, criam bolhas e zonas piratas à hierarquia, alguns buscando ampliar a distribuição da rede, ou ainda, desconstruir hierarquias existentes, com o intuito de criar um outro tipo de comportamento social mais criativo, inovador, colaborativo, livre, para justamente promover uma transformação mais abrangente das redes mais próximas à sua bolha, imaginem se, ao sabermos como estes anti-virus surgiram em meio à topologias hierárquicas, pudéssemos realizar conjuntamente o esforço para que novos “Neo’s” despertassem da matrix?


Será que o caminho para tal despertar é individual, unique e, de alguma forma, disassociado da rede hierárquica vigente? Será que este despertar deve caminhar por outros mapas, mais reais que esta abstração humana hierárquica, onde mundos imaginários e tão reais quanto, ainda se resguardam como bolhas delicadamente preservadas da monstruosidade apática da matrix?


Talvez nunca tenha havido um primeiro Neo, simplesmente porque todos são Neos. Neo é commons. Se tirarmos uma pessoa de um ambiente hierarquizante para um ambiente mais distribuído, simplesmente irá ressurgir o Neo que já havia nele. É como se o Neo fosse o programa original da pessoa, ou seja, distribuído. O Neo, já se mostra apenas como um ser emergente da transição, pois perde sentido em redes mais distribuídas. Tal como neste exemplo, a própria vida, inclusive social, teria a tendência de se auto-organizar-se de forma distribuída, sempre. Como uma inércia presente tendendo a 100% de distribuição, possível matematicamente, mas impossível pela própria dinâmica da vida.


É impossível, do meu ponto de vista, porque toda e qualquer ação gera algum nível de centralização, ou seja, o simples fato de exercemos a nossa vontade para qualquer coisa, por mais que busquemos NÃO OBSTRUIR de nenhuma maneira o fluxo, estaremos gerando uma hierarquia por menor que seja, pela razão de nossas ações sempre representarem uma interferência na tendência natural da rede-mãe de se auto-organizar-se de forma 100% distribuída.


Acho importante definir que ao citar centralização, utilizo a definição de possibilidade de bloqueio de fluxo, de uma formação topológica (por mais efêmera que seja) que crie esta possibilidade. E o fato de haver uma possibilidade, não quer dizer que é uma certeza. Assim, uma topologia mais centralizada não significa obstrução de fluxo, mas apenas a possibilidade de, pois se vai haver ou não uma obstrução, depende de inúmero fatores daquela dinâmica específica, que vão desde o comportamento, agora sim, hierárquico em torno, refletido na vontade da pessoa. E querendo ou não, estamos e estaremos vivendo constantemente em topologias que possam permitir algum nível de obstrução.


E acho importante reforçar que a centralização gerada com esta - apenas - possibilidade de obstrução, não é algo que ocorre apenas no campo social, mas também no natural.


Me parece evidente que toda centralização é apenas uma transição, é uma interferência da dinâmica da rede que automaticamente vai se auto-organizar de maneira mais distribuída pela própria inércia da rede-mãe.


Agora, trazendo novamente o conceito do tempo fractal, quando vemos uma organização mais centralizada durar um longo período de tempo, podemos agora dizer que é uma transição da dinâmica da rede que está acontecendo num período maior, mas que pode parecer “eterno” pela limitação de nossa percepção espaço-temporal. E por mais que exista o exerício da vontade de pessoas ou grupo de pessoas em querer manter estruturas rígidas neste sentido, não há como durar, pois a inércia distributiva supera o próprio tempo.


Quando falei que é impossível existir uma rede 100% distribuída, é porque se existisse, ela seria estática, afinal, sua topologia é 100% distribuída... Em outras palavras, o que veríamos, seria algo completamente MORTO, sem a dinâmica da vida pondo em movimento seu fluxo estrutural. Para tentar visualizar um pouquinho o que seria isso, veja este vídeo no link a seguir que de certa forma ilustra como um grau maior de distribuição vai diminuindo a “vida” da rede: http://escoladeredes.net/profiles/blogs/um-dos-layouts-de-visualiza-o-de-redes-do-fluzz?xg_source=facebookshare. Por isso, concordo quando alguns amigos aqui dizem que na din6amica da rede o que vale é o caminho, e não o destino. Buscar uma rede 100% distribuída me assemelha a uma busca por uma pureza original perdida, própria de várias linhas de pensamento e escolas iniciáticas hierárquicas. Enfim, não que essa hipótese signifique algo para o que estamos falando aqui, mas independente disso, penso que sempre haverá um mínimo de centralização como transições necessárias para que a rede-mãe possa fornecer e adquirir novas experiências.


Deste ponto de vista, quando é que haveria maior dinâmica? Penso que poderia ser quando ambas as forças, centralizadas e distribuídas, fossem semelhantes. O atrito gerado forneceria o máximo de experiências. E talvez este seja um “equilíbrio” que, dando combate a si mesmo, seja interessante ser mantido.


Todo este ensaio teve também motivação com algo que observei. Mesmo em sociedades militares, em instituições de regimes rígidos, em partidos, governos, dentro de castas sacerdotais enfim, em estruturas que definem muito bem o hierárquico (resgatado pelo Augusto), ocorre que pessoas conseguem não estar mais sob influência da hierarquia (e muitas vezes, continuando a conviver dentro da mesma topologia), ou seja, surge um Neo. Ele é uma bolha que vai influenciando outras, e ele pode continuar ali mesmo ou sair seguindo outros caminhos. De certa forma, enxergando num espectro mais amplo, o fato de reconhecermos a hierarquia da sociedade que vivemos e não estarmos sob influência total dela (pois que uma parte me parece que sempre poderá existir), não quer dizer que saímos da sociedade. Nós continuamos inseridos em uma topologia mais centralizada (e hirárquica), tendo em nosso entorno comportamentos tbm hierárquicos, porém, não somos influenciados totalmente mais por eles, ou seja, nós buscamos não (ou muito pouco) mandarmos, obedecermos, mesmo inseridos muitas vezes em topologias que permitam fazer isso.


Eu concordo que sim, em uma topologia mais distribuída, nem haveriam possibilidades para exercer mando controle, mas meu ponto é que o fato topológico ou de estruturas mais centralizadas não é a origem da hierarquia, caso contrário, estes Neo’s não poderiam surgir.


Com esta abertura, de modo nenhum quero insinuar que importe o que cada indivíduo pense ou sinta durante os fluxos da rede (até porque esta idéia induz que pessoa não é rede), uma vez que até então pensava que a origem do problema estava simplesmente em estruturas mais centralizadas, cujo condicionamento dos fluxos poderiam gerar situação de mando-controle. Com esta abertura, gostaria de começar a pensar em novos entendimentos sobre o próprio fluxo, que me parece ser ele quem define, forma e origina diferentes topologias, não antes da interação, mas durante mesmo. O fluxo se auto-regula, independente das crenças e experiências de seus nodos, mas cada ação ou comportamento de seus nodos está a todo momento impulsionando o fluxo para novas dinâmicas (que podem ser topológicas).


Existe uma condição para a obstrução de fluxos na qual somente sob ela poderíamos dizer que formamos hierarquia (no sentido original do termo, sacerdotal para manutenção de poder)?


Se um baduíno que é o último sobrevivente conhecedor de uma língua perdida, e que vive isolado em uma ilha, morre, este fenômeno natural altera a dinâmica de toda a rede, porque ele tira a possibilidade de todos os outros nodos acessarem aquela língua de alguma forma, ou seja, toda a cultura que aquela línguagem herdava se perde no espaço-tempo dos fluxos.


Augusto diz um post do FB que Hierarquia é quando uma pessoa pode mandar em outra, não havendo isso, não tem hierarquia. Ora, primeiro o fato de poder mandar não quer dizer que deve ou vai mandar, da mesma forma na diferença entre poder e dever obedecer. Se num evento um artista pede pra todos fazerem algo como parte do seu evento, temos uma hierarquia funcionando, porém, não é algo imposto, e da mesma forma, tal centralização não é um dragão a ser combatido.



IV - Podemos avançar no entendimento de hierarquia?


A centralização é uma topologia de transição. O universo é e está sempre tendendo ao dsitribuído, mas as interações mudam isso. Como se qq interferêcia de alguma forma deixa-se a rede menos distribuída, e ela passaria então a auto-organizar-se.


O Augusto de Franco magistralmente afirma que para criar redes se trata muito mais do que não fazer do que fazer. É exatamente por aí. Mas, muitas vezes o não fazer pode ser interpretado pela rede como um fazer, seria impossível mensurar isso. Por isso, me pergunto se existiria algum tipo de interferência que não mudasse o grau de distribuição? Penso que não. Então, sempre haverá bolhas que são a tendência do universo auto-organizar-se. A centralização é a transição que ocorre na dinâmica das transformações/evolução do universo. A hierarquia é a dinâmica de transição. E isso ocorre fractalmente,, do menor ao maior, inclusive, biológicamente, no espaço-tempo e na nuvem social-fluzz.


E eu acho muito interessante o que o Sérgio disse aqui (http://escoladeredes.net/forum/topics/dialogismo-entre-modos-descentralizados-e-centralizados-uma), sobre o modo como descentralizações geram centralizações e vice-versa, e sobre como uma é dependente da outra para criar sua própria dinâmica.


Se considerarmos que hierarquia é um termo para ser usado somente no sentido do exerçicio de poder, da condução forçada de fluxos etc, o podemos fazer. Neste caso, toda hierarquia necessariamente possui centralização, porém, é importante lembrar que nem toda topologia centralizada gera hierarquia. Apesar da topologia contribuir e ser necessária para o exercício da hierarquia neste sentido, a topologia por si só não é sinônimo de obstrução, mas, talvez em sua maioria, de transições encontradas na própria dinâmica da rede-mãe. É claro que não quero aqui desvalidar que a relação de poder só acontece em redes mais centralizados, pois com maior distribuição não há como ele tatear a rede, mas quero dizer que esta rede não basta ser centralizada, ela também precisa estar infectada pelo vírus de poder, da hierarquia, da manutenção e permanência de estruturas onde o comando-controle seja uma cultura praticada.


A topologia deixa de ser importante neste contexto, e só o seria, quando tentássemos erigir hierarquias criando artificialmente multi-centralizações, e além disso, fizéssemos um plano para as manter. Talvez possamos encontrar centralizações artificiais criadas que foram necessárias para um trabalho num dado momento, e que inclusive sua aparente centralização poderia garantir uma descentralização maior, como acontece com nosso sistema nervoso (lembrando ainda as referências sobre neurologia do Sergio). No fim é o apego (a várias coisas) e o medo de deixar-se fluir pelo inesperado imprevisível que geram deformações nocivas à sociedade.


As palavras hierarquia e centralização recorrem várias vezes como sinônimos em diversas conversações, mas creio que não seja assim.


Forçar a permanência de uma centralização para exercer uma hierarquia seria conduzir um fluxo sobre si mesmo, instalando um processo, que seria este programa hierárquico. Isso de alguma forma me lembra as maluquices dos strange loops (em sua maioria, hierárquicas) que se iniciam e terminam sobre si mesmas (ainda que tbm me pareça que a hierarquia sofreu do vírus-de-si-mesma e entrou em colapso... se fechou à rede-mãe e ela mesma sofre o obituário de seu próprio poder: obstruiu-se, eliminou-se).


Este Neo que consegue surgir mesmo inserido em condições hierárquicas, não é o cara que se influencia pela topologia local, mas é a pessoa que reuniu as condições para receber o fluxo de um salto quântico, ou seja, de um fluxo que não se encontra na realidade em que está inserido, mas que tem origem em outras realidades do espaço-tempo tanto físico quanto dos fluxos. E o fato desta pessoa (ou grupo) ter reunido as condições favoráveis para receberem este fluxo, não as faz especiais ou preparadas para tal, de nenhuma maneira imaginável, somente são partes da rede (pessoas) cujo momento espaçco-temporal melhor permitiu a rede manter a sua dinâmica em busca de sua distribuição. Poderia ser com qualquer um...



V - Influência das bolhas


O que é uma bolha? Penso que possa haver uma inércia no entedimento de que as bolhas formadas dentro de estruturas multicentralizadas são espaços neutros onde o máximo de distribuição é experimentado. Mas não. Uma bolha é um espaço neutro (muitas vezes invisível) que surge para descontituir, em algum grau, a centralização (e muitas vezes, também a hierarquia) presente.


A bolha é a própria regulação da rede-mãe em auto-distrbuir-se. É como aquele ponto negro que aparece no fundo branco do yin-yang. Ele surge, sem dar aviso, ele simplesmente é. E não há um Neo escolhido, Neo é commons. O ponto apenas se exterioriza na pessoa que por acaso está inserida nas melhores condições para cumprir seu papel desestruturante.


Mas para que seja ali, naquela pessoa, penso que deve haver algo além do que falamos aqui.


Então, o neo não é o cara que desconstitui hierarquias (criando redes), o lance não é constituir redes, mas sim, saber conviver com a não-ação (ou seja, sem querer mandar nos outros, rs) dentro da dinâmica da rede-mãe (que inclui dinâmicas centralizadoras). Isso vem de encontro com a idéia de que não é para fugir do mundo, se fechar numa escola de eleitos ou qq coisa maluca do tipo, mas sim, estar presente em toda a rede, em qualquer topologia, sem querer institucionalizar um poder artificial e um programa para mantê-lo o maior tempo possível. E mesmo assim, ainda acho que a instituição artifical de centralizações não significa criar hierarquia, e muitas vezes, isso pode ser necessário.



VI - É o emaranhado ou o nodo?


Por vezes confundimos esta história. Em algumas conversações trocamos impressões de que uma pessoa não pode impor alguma estrutura à sua rede (a essência está que não existem nodos antes da rede, eles ocorrem ao mesmo tempo), mas sim, se há alguma imposição hierárquica é em virtude do emaranhado, no seu sentido topológico. Assim, me parece um erro achar que uma hierarquia se constitui sempre que há multi-centralizações. Não é a centralização que instala o programa hierárquico, ele é condição, mas não o motivo ou origem. O que gera hierarquia não está na topologia, mas em algum lugar do espaço-tempo dos fluxos, não como algo natural, mas como uma criação humana, ou seria como uma doença do fluxo. Pensar a origem disso talvez passe em pensar na origem do apego, da insegurança, do medo, da solidão etc. Sim, e tudo isso tem origem na hierarquia, mas, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? E como veio?



VII - Nuvem social, mundo paralelo?


Apesar de compartilhar com a visão de que a fluição no espaço-tempo dos fluxos acontece simultaneamente com as realizações no espaço-tempo físico, me parecem que existem certos fenômenos que são capazes de serem captados antes deles ocorrem na rede a qual estou ligado. E isso pode dar a aparência de que houve um evento a priori ao que ocorre no espaço-tempo físico. O que penso que acontece, é que certos eventos se fazem em outros pontos da rede-mãe, o qual eu posso sentir o fluxo ou sua deformação se aproximando, através das próprias conexões da rede. Quando este fluxo me transpassa ou atinge minha rede, teria a impressão de ter antecipado o que ocorreria, quando na verdade, só senti o evento se disseminando já na própria rede.


Então, apesar do mundo dos fluxos e do mundo físico estarem se criando ao mesmo tempo, não existe uma necessária correspondência entre o fluxo que eu entrego à rede-mãe com o espaço-tempo físico onde estou, pois ele pode ser “entregue” num outro espaço e tempo muito distante do meu. Como e porque isso ocorreria, se ocorre, sei lá.

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Respostas a este tópico

Marcelo,

Em muitos pontos do seu texto noto um uso que considero muito inapropriado dos conceitos de "redes"e hierarquias. Digo inapropriado no sentido de que,quando aplicados,  terminam obscurecendo fenômenos, inferências.
Há em muitas passagens , em vários níveis do discurso e das argumentações um uso de "redes" e hierarquias como sendo algo assim: se alguém consegue construir uma narrativa sobre algum aspecto da realidade usando como "base de discurso" um grafo ou uma topologia, se está falando de redes e hierarquias. Pode até estar falando, neste campo "ampliado' de uso; mas acho que termina confundindo campos inteiramente diversos epistemologicamente falando...

Os exemplos no início do texto( sobre o meteoro, a mulher, etc) para mim dizem nada sobre o modos e dinâmicas de regulação social....dizem apenas que sob um ângulo de um observador externo o aspecto da realidade  "atenção de pessoas dirigida a algo" pode ser descrita como um grafo. Seria a mesma coisa que ao observar os ceús um observador ficar desenhando grafos usando as estrelas como "nodos" e denter os grafos possíveis existirem "arvore binarias", "grafos com distribuição X", "grafos descentralizados", etc. isto é, desenhar linhas entre as  estrelas, mapeá-los para a teoria matemática dos grafos e com isto fazer inferências sobre modos de regulação de social baseados no conceito de "hierarquia" é forçar em excesso a "barra".

Como este tipo de argumentação é recorrente em todo o texto, tenho dificuldades em todo seu texto. (embora concorde com várias passagens isoladamente". Há vários outros pontos delicados que daqui a pouco, com mais tempo, elaborarei.

A minha impressão inicial é também bem parecida com a do Nilton. Mas vou refletir mais e comentar por parágrafos. A questão central, a meu ver, é que não existe uma ordem abrangente que inclua o social no cosmos. O social é outro tipo de cosmos. Tenho dito - sem ser entendido, por minha culpa hehe - que o social é uma outra criação... Em outras palavras: a rede-mãe distribuída será o que será.

Mas aguarde aí :)

Legal pessoal! Vamos nessa. Me ajudem a entender melhor estas escorregadas que dei. Com esta troca, poderei ir esclarecendo melhor minha percepção e vamos trocando idéias. 

O que tento falar é que:

1) o cosmos e o social não estariam separados, e nem um implica em ordem sobre o outro, porém, um influencia a dinâmica do outro, e penso que podem ser um parte do outro, fractais.

2) a rede-mãe teria a tendência natural de se auto-distribuir. 

3) qualquer ação geraria algum nível de centralização.

4) centralização seria parte da dinâmica natural da rede, como uma transição para outros fenômenos ou topologias mais distribuídas. E da mesma forma, a centralização de determinadas partes poderia garantir, num contexto mais amplo da rede, uma distribuição maior.

5) centralização por si só, não gera hierarquia. Para haver hierarquia, além de centralização, é necessário um fluxo específico, que implante o mando-obediência, controle e a permanência deste contexto.

6) Não acredito que este fluxo (a instalação da hierarquia) tenha origem simplesmente pela topologia da rede, pois desta forma não surgiriam pessoas que não são influenciadas pela hierarquia, e que ainda conseguem permanecer dentro da hierarquia sem sofrer sua influência. E da mesma forma, vários outras dinâmicas sociais que geram centralização espontânea sempre estariam gerando monstros-não humanos, quando penso tais topologias poderem surgir como parte natural da dinâmica da rede se readequando às ações que sua expansão-distributiva sofre.

Depois podemos ir explorando outras questões que abordo. Mas é isso aí.

Obrigado pela oportunidade de trocas aqui pessoal! :-)

Como o texto é bem grande, tomei a liberdade de numerar os subtítulos. Passo a comentar o item I.

 

I - Sobre a natureza das topologias no espaço-tempo dos fluxos


Redes são dinâmicas. Ou seja, desde que nós não ergamos muros ou criemos quadrados que deformem e condicionem sua topologia, as redes são essencialmente livres (e penso que exista um comportamento natural das redes - ou da rede-mãe - que é tender à 100% de distribuição, o que abordarei de outras maneiras no decorrer deste texto).

Esta liberdade de ação, de movimento, permite que as redes assumam configurações que são todas as topologias possíveis, pois de outra forma, contrariaria o próprio sentido livre das redes. Ou seja, uma rede essencialmente livre ela é centralizada, multicentralizada e distribuída ao mesmo tempo, e nós vivemos e somos parte dela. Isso ocorre, porque dentro desta dinâmica, ela possui momentos em que assume outras topologias, mesmo que não sejam as mais distribuídas, ou seja, temos algum tipo de evento cuja gravidade gera algum nível de centralização (pode-ser ler incluindo muti-centralização daqui em diante). Gostaria de exemplificar isso de algumas formas, ainda que toscas:


1) O meteoro como o que caiu na Rússia atraiu toda a atenção para ele. Isso nos dá idéia de centralização pois toda aquela comunidade teve praticamente toda sua atenção focada ao fenômeno. A atenção à centralização gerada pode ter deixado de várias pessoas terem outras experiências se não estivessem focadas ali.

Atrair a atenção não tem a ver com centralização. Nem mesmo exercer influência tem a ver. Centralização significa que o fluxo deve passar obrigatoriamente por um caminho e não por outro.


2) Se uma mulher exuberante entra num restaurante, é evidente que ela irá chamar atenção de muita gente lá dentro, criando uma centralização pela atração que exerce. Se uma pessoa passar na frente, por um motivo qualquer, ele gera uma OBSTRUÇÃO ao bloquear espontaneamente (e de forma imprevisível) ao acesso visual àquela pessoa.

Idem. Acesso visual não ilustra bem.


3) Existem momentos em que queremos gerar centralização, não para exercer mando-controle e cercear a liberdade do outro, mas para que todos que sejam tocados por algum evento tenham o máximo de aproveitamento. Por exemplo, ao organizar uma apresentação artística, num palco ou numa praça, nós podemos inclusive pensar em como atrair a atenção da maioria, e isso significa gerar uma forma de centralização na topologia local.

"Queremos gerar centralização": quem é o sujeito? Novamente aqui aparece o "atrair a atenção". O broadcasting (a transmissão um-muitos) é uma forma centralizada de difusão, mas não altera a topologia da rede se não impedir outros fluxos peer-to-peer (por exemplo).


4) A gravidade, a menos que possamos postular um entedimento diferente (e porque não? eu mesmo já tentei...rs), é uma força de natureza centralizadora, responsável inclusive em manter a vida. Ela está no universo, no globo que pisamos, no corpo que habitamos (o que faz que em cada lugar onde se faz presente, gere multi-centralizações). Penso que podemos inclusive associar o conceito de gravidade com várias dinâmicas das redes sociais, até porque entendo que forças físicas naturais influenciam o comportamento humano.

Gravitatem como fenômeno humano-social (também atribuída, às vezes, à líderes carismáticos) é um deslizamento de um conceito físico. Comparações como estas naturalizam a hierarquia. Mesmo usadas como metáforas induzem à compreensão de que existem correspondências no mundo não-humano com o mundo social.


Percebe-se que existe, portanto, momentos de fluição em que a rede assume topologias mais centralizadas que distribuídas, inclusive dentro de campos que estão além da nuvem social humana, ou seja, em fenômenos físicos, biológicos, naturais. Tudo bem, sei que usar fenômenos físicos e biológicos para o social humano é algo que, a princípio, não se aplica, mas além de só querer usar o exemplo topológico em questão para visualizarmos centralizações da rede, temos tanto dinâmicas sociais, quanto dinâmicas físicas ou biológicas que afetam a social, ou seja, de alguma forma nos afetam e interagem conosco, afetando a nuvem social humana.

O parágrafo acima infere uma conclusão que não deriva dos exemplos citados acima. "Percebe-se que existe, portanto, momentos etc.". Há um ab uso da palavra "portanto". Que dinâmicas físicas ou biológicas afetam e interagem conosco, parece óbvio. A questão é o que significa a palavra "conosco". Afetam o nosso corpo físico, por certo. Afetam nossas dinâmicas bioquímicas e biofísicas, por certo. Mas daí não se pode concluir que afetem a nuvem social humana, não, pelo menos, da mesma forma, ou mesmo de qualquer forma comparável. O tipo de interação física (gravitacional, eletromagnética, forte e fraca), biofísica ou bioquímica, não é o mesmo tipo de interação social. Em outras palavras: não se pode ter uma mesma explicação - de mesmo status epistemológico - para fenômenos físicos, biológicos e sociais. Não se pode derivar uma sociologia e uma política da física ou da biologia. E nem se pode ter uma meta-explicação que dê conta de explicar todos esses diferentes tipos de fenômenos. Quando a ciência das redes percebe fenômenos que se aplicam tanto a sistemas físicos, biológicos e sociais, ela não se qualifica para explicar a especificidade desses fenômenos nos terrenos físicos, biológicos e sociais. Ela não substitui todas as ciências por ela mesma. Apenas reconhece padrões de interação homólogos no mundo físico, biológico e social, mas não explica todos os demais padrões específicos que ocorrem em cada um desses mundos.

Particularmente, eu acredito em um universo imprevisível, dinâmico, em construção, que se articula no improviso, e é fractal. E fractal não só no espaço, como também no tempo, e extendo ainda à própria nuvem social humana. Por isso, acho muito congruente a idéia de que, mesmo que só a título de amostragem ou exemplo (pois estou longe de dizer que as relações humanas de qualquer forma se espelham ou são consequência de uma força cósmica, sobrenatural ou universal), imagens do coisas não humanas de alguma forma fractalizam-se nas humanas, e vice-versa (por mais paradoxal que as vezes isso possa se  mostrar). Se estamos falando de redes, gostaria primeiro de levar isso além do sentido social, mas da própria dinâmica da vida e do universo. E sim, ao analisarmos isso estritamente do ponto de vista social, perceber quais elementos novos entram no jogo desta dinâmica influenciando a essência livre da rede-mãe, com o fim de exercitar novas visões sobre uma relação que sempre pareceu ser necessária de que toda centralização gerar hierarquia (no sentido original, ou do comportamento sacerdotal).

Talvez seja melhor não pensar em um universo e sim em multiverso. Os universos físicos não são os mesmos que os universos sociais. A tentativa de uma explicação única evoca o desejo de uma unidade primeva geradora de tudo, um esquema cósmico geral, uma espécie de árvore da vida que contenha um esquema explicativo para tudo que foi, é e será. As relações do humano (do primata bípede da espécie biológica Homo) com o mundo não-humano existem, por certo, mas não são relações sociais. Eis o ponto.


Fica evidente que existam, portanto, fenômenos tanto naturais quanto sócio-culturais que criam topologias mais centralizadas que distribuídas, e penso que isso não é um problema na rede, mas parte natural de sua própria dinâmica.

Novamente aqui me parece que a conclusão não faz parte do argumento. "Fica evidente que existem, portanto..." Não fica evidente. Não vi nenhum argumento forte o suficiente para mostrar que fenômenos naturais criam topologias mais centralizadas que distribuídas. Não vi, por exemplo, um só exemplo, que se aplique à dinâmica da vida. E interpretar a gravidade como centralização meio que força a barra. A energia escura levaria à que então? À distribuição? Os conceitos topológicos de redes não se aplicam bem aqui. A gravidade pode não ser vista como uma atração centralizadora e sim como uma deformação no espaço-tempo ou como a consequência de um referencial acelerado (como no Princípio da Equivalência de Einstein, do elevador que sobe com aceleração g). Mesmo quando se diz, na hipótese gravitacional tradicional, que os corpos se atraem na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância entre eles, não se está dizendo que um corpo atrai o outro (que um é o centro): eles se atraem mutuamente e vão se encontrar num ponto que corresponde ao centro de massa da configuração. Como a gravidade se estende por todo o universo... todos os corpos se atraem e não é possível identificar uma espécie de centralização de rede nesse processo. Entendo que há aqui mais uma vez uma tentativa de projetar, sobre o funcionamento do universo físico clássico, fenômenos que foram percebidos em sistemas complexos (e redes são sistemas dinâmicos complexos e estruturas que se desenvolvem e não é a toa que dificilmente podem ser percebidas em outros sistemas e estruturas).


É interessante a tendência que possuímos de pensar que, se uma rede é essencialmente livre em suas interações, independente do efeito da vontade humana, ela deveria ser sempre distribuída, uma vez que a idéia de centralização (quase sempre entendida também como hierarquia) inibiria a sua liberdade. Meu medo é criar algum tipo de preconceito à topologias mais centralizadas que distribuídas, ou ainda para topologias multi-centralizadas, que dificulte ou trave o entendimento de sua dinâmica natural. Penso que elas ocorrem naturalmente, em redes “naturais” e “sociais”, inclusive sem o exercício direto de nossa vontade. Senão caímos numa especie de luta de bem contra o mal sem pé nem cabeça.

Uma rede será distribuída a não ser enquanto se centralize por algum motivo. Isso é quase uma tautologia. Se for um sistema que possa ser descrito como uma rede, tais centralizações podem ocorrer por vários motivos e não há nenhuma valoração de bem e mal aqui. Aliás, nem mesmo em redes sociais pode-se, a rigor, dizer isso.

A questão que fica é o que acontece e como reage o comportamento humano quando este se encontra em topologias mais centralizadas. E temos que elas podem surgir espontaneamente ou naturalmente, ou ainda podem surgir por vontade dirigida, ou seja, artificialmente. E ainda, estas topologias podem nos influenciar tendo sua origem no meio (do ponto de vista natural e físico) ou origem social (humano), pois deve ser muito semelhante a reação de uma pessoa comparando como se comportaria diante de um tornado destruindo sua cidade e pondo em risco sua própria vida, com a possibilidade de estar diante de alguém atirando com uma metralhadora dentro do cinema.

A centralização na rede social aconteceu. É irrelevante se por vontade dirigida. Supõe-se que uma configuração particular se constelou e teve condições de se replicar, mas não sabemos como. E talvez nem tenha sentido perguntar por que. Mas isso não nos autoriza a supor que podem ter ocorrido espontaneamente ou naturalmente. O que seria espontaneamente? O que seria naturalmente? Natural tem a ver com algo como "natureza" (ou vida)? Tem a ver com alguma lei do universo físico? O que significam essas palavras? A reação de uma pessoa diante de um tornado não pode levá-la "naturalmente" a centralizar a rede social de que faz parte: ela segue primeiramente seu sistema límbico, foge, preserva a sua vida seguindo uma deriva natural (e aqui faz sentido o uso da palavra "natural"). Reage primeiramente como qualquer animal exposto ao perigo. Mas não elimina conexões nem corta caminhos de outras pessoas estruturando um modo de vida em que isso seja funcional para a constituição de seu fenótipo. Aqui fica mais evidente a confusão.


Mas fixando-nos sobre as topologias criadas artificalmente (de forma que não seja espontânea) esta topologia (se envenenada com um comportamento hierarquizante) tende a exercer uma influência que passa a ser improdutiva do ponto de vista das redes, ou seja, inibe a liberdade do fluxo (inclusive de se centralizar espontaneamente de acordo com sua dinâmica) e a colaboração entre os indivíduos.

"Envenenada com um comportamento hierarquizante"? Ora, não há comportamento hierarquizante independente do padrão de organização. Estamos falando de um atributo do padrão de organização. A competição é isso, e nada mais. Assim como a cooperação. Não é o resultado da eclosão de um ovo da serpente que cada humano traria em si (ou do pecado original). "Liberdade do fluxo de se centralizar espontaneamente de acordo com sua dinâmica"? O que seria isso? Qual a dinâmica intrínseca que levaria o fluxo a não-fluir (sim, porque é disso que estamos falando)? O fluxo só existe enquanto flui!

É importante destacar que estas infinitas topologias possíveis de acordo com suas interações refletem apenas instantes captados na dinâmica da rede. A rede não é algo que começou ou vai terminar, que existiu ontem de determinada maneira, hoje está de um jeito caminhando para outro amanhã. Não. A rede ela está em todo lugar e em todo tempo. Nosso limite de percepção do tempo é que nos conduz à idéia errônea de que a rede é o instante topológico que percebemos. Pegando carona em algumas abstrações que a física quântica nos tem dado abertura a criar, imaginem que nossa percepção do tempo-espaço é o instante de uma foto, ou seja, do abrir e fechar da objetiva de uma câmera fotográfica. Para nós, que captamos somente um instante no espaço-tempo dos fluxos, a realidade é aquele momento apenas, e o que vemos, é algo singular, fixo no espaço-tempo. Porém, imaginem que para uma percepção mais expandida, ou até mesmo infinita, seria como se a câmera permanecesse com a objetiva aberta. Neste caso, nesta “foto”, o que veríamos? Veríamos todo o passado, o presente e o futuro existindo ao mesmo tempo, participando do mesmo instante. Nós, mesmo antes de nascermos e mesmo depois de morrermos, continuaríamos presentes naquele mesmo instante. E, além desta percepção, imaginem que todo aquele fluxo fotografado, é inter-dependente quanto seus nodos, que estão se influenciando e alterando a todo “momento”. Ou seja, o que tendemos a chamar erroneamente de passado, presente e futuro estão se alterando a todo instante, um influenciando a realidade do outro. O que vemos, portanto, é uma verdadeira metamorfose ambulante.

Não exista nada como "a rede". É um padrão de organização, não uma entidade, um ser onipresente.


Sendo assim, acho que podemos afirmar que na rede se encontram não somente todas as topologias possíveis como algo que é NATURAL de sua própria dinâmica, mas que também nesta nuvem de fluxo temos todos os espaços e tempos reais ocorrendo neste momento e se inter-influenciando de forma inter-dependente. E real, como bem dizia Hakim Bey, inclui o imaginário, uma vez que ele é real o bastante para aqueles que o sentem.

A rede não é uma realidade metafísica preexistente aos fenômenos interativos. Quando há interação que pode ser captada como um sistema complexo ou como uma estrutura capaz de se desenvolver dizemos que há rede. Mas o status epistemológico (da explicação) não pode ser confundido com um status ontológico. 


O que não nos permite acessar todos os espaços-tempos é um tema interessante para uma outra discussão, incluindo se isso seria realmente possível, e se o fato de estarmos uniques em nossos corpos cria o paradoxo que nos limita a este acesso. Enquanto isso, creio que o único momento que existe é o presente, o que por si só, vivê-lo já é uma dádiva.


Penso que, diante deste entendimento, pouco importa a topologia que se forma no fluxo das redes, inclusive se ela se tornar mais centralizada que distribuída, justamente, porque ela está em fluxo, não será constante, está em permanente mudança. Pouco importa a topologia da rede.

Centralizar significa impedir o livre fluir. O fluxo é fluição. Quando há centralização há um óbice à fluição. Não há um fluir que se expresse como um não-fluir.



Augusto, agradeço muito os seus comentários. E tbm sua paciência em buscar re-explicar tanta coisa, rs. Está me ajudando muito a compreender melhor estes conceitos, e acredito que a muitos outros tbm deve ajudar. Já percebi que tem coisas que refletem um erro de entendimento mesmo, em outras percebi aquelas convicções arraigadas com fim próximo que em mim buscam sobreviver de alguma maneira (rs), mas em outras, como disse, eu realmente postei o texto sem pensar melhor e aprofundar exemplos e ou melhorar argumentos.

Vou aguardar o restante de seus comentários, e ao mesmo tempo pegar um fôlego aqui pra buscar me readequar a novas visões, e em seguida vamos trocar outras impressões. Valeu!

Augusto, não me segurei aqui. Lá vai outros comentários, rs.

Me ajude a definir, o que seria a rede-mãe? Meu entendimento é como se fosse TODA a rede social (e aqui, já foco apenas na rede formanda por pessoas) que incluir todas as outras redes menores que co-existem dentro dela. Dentro desta rede-mãe, temos todos os tipos de redes menores, fenômenos, dinâmicas, topologias possíveis?

Depois, eu sei que é algo dificil de mensurar ou observar, mas esta rede-mãe seria algo completamente neutro, ou podemos postular que talvez exista algum tipo de força inerente a ela, que busque sempre uma distribuição maior? Coloco esta visão pela própria razão da origem das bolhas, dos small-bangs, atribuindo este surgimento não a um esforço individual ou da vontade de nodos, mas a uma própria auto-regulação da rede.

Se podemos enxergar esta rede-mãe de um ponto de vista mais macro, e vendo ali ocorrendo inclusive hierarquias, não podemos entender que ou um certo (des)equilíbrio deva ser mantido (de forma auto-regulatória pela própria rede) para que sua dinâmica seja mais rica?

É dificílimo não fazer analogias com o que observamos em outras redes, que não humanas, para tentar exemplificar o que quero dizer. A despeito disso, gosto do desafio, e também me agrada muito a proposta de que a rede social humana é um universo completamente diferente e próprio, em relação a outras redes.

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Atrair a atenção não tem a ver com centralização. Nem mesmo exercer influência tem a ver. Centralização significa que o fluxo deve passar obrigatoriamente por um caminho e não por outro.

Augusto, eu realmente não consigo entender isso. Me ajude. Veja por exemplo a hierarquia militar (pleonasmo! rsrs), se sou sargento e quero falar com o capitão, devo passar pelo tenente. Eu entendo que vc diz que isso é hierarquia e um tipo de centralização (que gera hierarquia). Mas eu não sou obrigado a fazer isso. Eu posso, se quiser, falar direto com o capitão. Claro, terei consequências, mas apesar disso eu não sou obrigado. Dependendo do que for, nem consequencia terei. O mesmo se sou um pedreiro e quero dar idéias direto ao engenheiro. Enfim, só quero dizer que uma topologia centralizadora se configura seja tendo suas regras, exercendo sua influência ou atraindo minha atenção, e em qualquer dessa situações eu posso ter “n” consequencias se me desviar da atenção, da influência ou das regras, pois este direcionamento, apesar de conduzir, não é obrigatório. Eu entendo que eu passo a ser realmente obrigado a alguma coisa se eu sou compelido a fazer algo contra a minha vontade.

Por isso digo que a topologia não gera hierarquia (apesar de eu entender que a topologia é necessária para a hierarquia funcionar), mas sim, a hierarquia está no fato de eu querer subjugar o outro me aproveitando da estrutura em que nos configuramos. Me parece algo que está mais no espaço-tempo dos fluxos do que no espaço-tempo físico.

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Gravitatem como fenômeno humano-social (também atribuída, às vezes, à líderes carismáticos) é um deslizamento de um conceito físico. Comparações como estas naturalizam a hierarquia. Mesmo usadas como metáforas induzem à compreensão de que existem correspondências no mundo não-humano com o mundo social.


Veja bem, quando escredi este texto, meu entendimento é que hierarquia e centralização são coisas diferentes, logo, a comparação teve o intuito sim de naturalização, não da hierarquia, mas da centralização. Não sei se é proposital, ou um problema mental meu (haha), mas me parece nos seus textos que toda centralização necessariamente implica em gerar comportamentos hierárquicos ou hierarquia.


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Quando suas idéias podem mudar comportamentos?

Também gostaria de aprofundar a questão de que somente comportamentos mudam comportamentos, ou seja, uma idéia não muda as pessoas. Eu concordo com isso. Mas é algo que me parece válido somente em ambientes quando o campo social for muito mais hierárquico (e não centralizados, até que eu entenda melhor isso), ou em campos muito mais distribuídos (uma vez que alguém querendo impor hierarquia em tais ambientes tbm não mudará o comportamento dos outros). Porém, quando temos um grupo de pessoas cujas idéias são comuns ou se afinizam, a idéia deste grupo gera força suficiente para mudar seus comportamentos, seja qual for a idéia (se hierarquizante ou não), pois a nuvem social parece se adensar o suficiente para mudar o campo social em que estão inseridas. E penso que isso possa ocorrer sem ser nada imposto. Se a coisa for por aí, eu me pergunto também se uma pessoa com uma idéia não conseguiria atrair de alguma forma pessoas afinizadas com sua idéia até o momento em que pudessem mudar o campo social. Ou seja, persista e aguarde (?).

Eu estou refletindo sobre isso, porque continuo com o entendimento de que a hierarquia é algo que advém muito mais da nuvem social do que do campo social, ou seja, me parece que o software (uma idéia) modifica o hardware, e este software é a hierarquia. E, Augusto, sobre isso, vc me parece concordar, ao dizer no livro Hierarquia pag 18: “Um software que modifica o hardware. Um hardware que, uma vez modificado, induz a replicação do software; ou seja, instala automaticamente o programa nas pessoas que a ele se conectam.”

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O parágrafo acima infere uma conclusão que não deriva dos exemplos citados acima. "Percebe-se que existe, portanto, momentos etc.". Há um ab uso da palavra "portanto". Que dinâmicas físicas ou biológicas afetam e interagem conosco, parece óbvio. A questão é o que significa a palavra "conosco". Afetam o nosso corpo físico, por certo. Afetam nossas dinâmicas bioquímicas e biofísicas, por certo. Mas daí não se pode concluir que afetem a nuvem social humana, não, pelo menos, da mesma forma, ou mesmo de qualquer forma comparável. O tipo de interação física (gravitacional, eletromagnética, forte e fraca), biofísica ou bioquímica, não é o mesmo tipo de interação social. Em outras palavras: não se pode ter uma mesma explicação - de mesmo status epistemológico - para fenômenos físicos, biológicos e sociais. Não se pode derivar uma sociologia e uma política da física ou da biologia. E nem se pode ter uma meta-explicação que dê conta de explicar todos esses diferentes tipos de fenômenos. Quando a ciência das redes percebe fenômenos que se aplicam tanto a sistemas físicos, biológicos e sociais, ela não se qualifica para explicar a especificidade desses fenômenos nos terrenos físicos, biológicos e sociais. Ela não substitui todas as ciências por ela mesma. Apenas reconhece padrões de interação homólogos no mundo físico, biológico e social, mas não explica todos os demais padrões específicos que ocorrem em cada um desses mundos.


Augusto, muito legal mesmo isso que vc escreveu sobre derivações e meta-explicações. Realmente, sempre foi uma tendência minha pensar assim. É muito novo pra mim a questão de explicações completamente diferentes e não conectadas entre os multiversos. E estou adorando ter contato com esta novidade, hehe! Mas me permita deixar aqui apenas que também me parece óbvio que as interações que não sociais nos afetam radicalmente. Eu não tenho hoje conhecimento para poder tentar validar este “osso meu”, rs, mas além de entender que dinâmicas físicas (como a gravidade, a luz, atmosfera etc) e biológicas/bioquímicas (hormônios, configuração neuro-vegetativo, formação óssea, interação com outros seres vivos) afetam diretamente nosso comportamento, me parece que a busca destes entendimentos ou descobertas pelo homem no decorrer da história também influencia diretamente seu comportamento. Ou vc acha que se a gravidade mudasse, se tivéssemos mais dia que noite, menos oxigênio, ou se descobríssemos algo completamente novo na natureza (algo como comparar o comportamento humano desde Newton, e as idéias que estão influenciando nossa sociedade pós-einstein), nós continuaríamos daqui 10 anos se comportando da mesma forma como se isso não influísse em nada? O quanto tudo isso está misturado ou não? Mas vou pensar e repensar melhor sobre tudo isso Augusto.

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Talvez seja melhor não pensar em um universo e sim em multiverso. Os universos físicos não são os mesmos que os universos sociais. A tentativa de uma explicação única evoca o desejo de uma unidade primeva geradora de tudo, um esquema cósmico geral, uma espécie de árvore da vida que contenha um esquema explicativo para tudo que foi, é e será. As relações do humano (do primata bípede da espécie biológica Homo) com o mundo não-humano existem, por certo, mas não são relações sociais. Eis o ponto.


Sim, sim, captei!

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Novamente aqui me parece que a conclusão não faz parte do argumento. "Fica evidente que existem, portanto..." Não fica evidente. Não vi nenhum argumento forte o suficiente para mostrar que fenômenos naturais criam topologias mais centralizadas que distribuídas. Não vi, por exemplo, um só exemplo, que se aplique à dinâmica da vida. E interpretar a gravidade como centralização meio que força a barra. A energia escura levaria à que então? À distribuição? Os conceitos topológicos de redes não se aplicam bem aqui. A gravidade pode não ser vista como uma atração centralizadora e sim como uma deformação no espaço-tempo ou como a consequência de um referencial acelerado (como no Princípio da Equivalência de Einstein, do elevador que sobe com aceleração g). Mesmo quando se diz, na hipótese gravitacional tradicional, que os corpos se atraem na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância entre eles, não se está dizendo que um corpo atrai o outro (que um é o centro): eles se atraem mutuamente e vão se encontrar num ponto que corresponde ao centro de massa da configuração. Como a gravidade se estende por todo o universo... todos os corpos se atraem e não é possível identificar uma espécie de centralização de rede nesse processo. Entendo que há aqui mais uma vez uma tentativa de projetar, sobre o funcionamento do universo físico clássico, fenômenos que foram percebidos em sistemas complexos (e redes são sistemas dinâmicos complexos e estruturas que se desenvolvem e não é a toa que dificilmente podem ser percebidas em outros sistemas e estruturas).


Cool Augusto! Adorei tudo. Mas então vamos afinar os entendimentos.

Se eu quiser começar a forçar a visão de que coisas aparentemente centralizadas são em verdade distribuídas, me parece o mesmo de quer forçar a visão de que hierarquias existem por toda parte. Por isso no texto eu digo que não há problema nenhum se uma topologia se apresenta as vezes como mais distribuída ou mais centralizada, a hierarquia é outra coisa. O ponto de divergência me parece ser o entendimento que temos sobre centralização. Me diga se para vc, qualquer topologia observável, em qualquer meio, que configure um grafo mais “centralizado”, é qualquer outra coisa menos centralização. E qualquer comportamento observável que tenha o poder ou a condição para exercer uma relação de mando-controle é hierarquia, e que também é sinônimo para centralização. É isso? E se for, não entendo ainda porque isso estaria correto.

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Uma rede será distribuída a não ser enquanto se centralize por algum motivo. Isso é quase uma tautologia. Se for um sistema que possa ser descrito como uma rede, tais centralizações podem ocorrer por vários motivos e não há nenhuma valoração de bem e mal aqui. Aliás, nem mesmo em redes sociais pode-se, a rigor, dizer isso.


Vish, agora é que não entendo mais nada, hahaha. “centralizações podem ocorrer por vários motivos” mesmo sem que tais centralizações configurem comportamentos hierárquicos? aqui tem a ver diretamente com o entendimento anterior que escrevi neste comentário.

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A centralização na rede social aconteceu. É irrelevante se por vontade dirigida. Supõe-se que uma configuração particular se constelou e teve condições de se replicar, mas não sabemos como. E talvez nem tenha sentido perguntar por que. Mas isso não nos autoriza a supor que podem ter ocorrido espontaneamente ou naturalmente. O que seria espontaneamente? O que seria naturalmente? Natural tem a ver com algo como "natureza" (ou vida)? Tem a ver com alguma lei do universo físico? O que significam essas palavras? A reação de uma pessoa diante de um tornado não pode levá-la "naturalmente" a centralizar a rede social de que faz parte: ela segue primeiramente seu sistema límbico, foge, preserva a sua vida seguindo uma deriva natural (e aqui faz sentido o uso da palavra "natural"). Reage primeiramente como qualquer animal exposto ao perigo. Mas não elimina conexões nem corta caminhos de outras pessoas estruturando um modo de vida em que isso seja funcional para a constituição de seu fenótipo. Aqui fica mais evidente a confusão.


A idéia que quis passar era de que um tornado, ou uma pessoa com uma metralhadora, ameaçam a liberdade da pessoa ao exercerem poder sobre ela. É o entendimento que coloquei em outro ponto deste comentário, de que há hierarquia se sou impelido a fazer algo contra minha vontade. E o exemplo radical é a ameaça à nossa vontade de viver. É um extremo poder que nos influencia, condiciona fluxo etc, e faço analogia disso com qualquer topologia centralizadora onde funcione hierarquia.

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"Envenenada com um comportamento hierarquizante"? Ora, não há comportamento hierarquizante independente do padrão de organização. Estamos falando de um atributo do padrão de organização. A competição é isso, e nada mais. Assim como a cooperação. Não é o resultado da eclosão de um ovo da serpente que cada humano traria em si (ou do pecado original). "Liberdade do fluxo de se centralizar espontaneamente de acordo com sua dinâmica"? O que seria isso? Qual a dinâmica intrínseca que levaria o fluxo a não-fluir (sim, porque é disso que estamos falando)? O fluxo só existe enquanto flui!


Pois é, acho que vc conseguiu entender meu ponto de vista. É diferente do que vc colocou aqui Augusto. Eu entendo sim que toda hierarquia possui um padrão de organização semelhante, mas propuz fazermos o exercício de pensar se realmente em todo padrão centralizador necessariamento se forma hierarquia (no sentido comportamental, e não do grafo, uma vez que separo a topologia centralizadora do comportamento hierárquico).

E quando falei sobre o fluxo, é justamente por entender que para ocorrer este fluir as vezes seria necessário centralizar. Sobre isso em específico, eu gostaria de pensar melhor, para ilustrar com exemplos que acredito encontrar na história.

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A rede não é uma realidade metafísica preexistente aos fenômenos interativos. Quando há interação que pode ser captada como um sistema complexo ou como uma estrutura capaz de se desenvolver dizemos que há rede. Mas o status epistemológico (da explicação) não pode ser confundido com um status ontológico.


Obrigado Augusto, novamente aqui, minhas tendências arraigadas com outra linha de pensamento... rs.

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Centralizar significa impedir o livre fluir. O fluxo é fluição. Quando há centralização há um óbice à fluição. Não há um fluir que se expresse como um não-fluir.

Ok, mas novamente, a sua idéia de centralização está associada como um sinônimo à hierarquia, correto? Não há centralização sem hierarquia, pois dinâmicas ou grafos que se conformem aparentemente como centralização na verdade não o são, simplesmente porque não há centralização espontânea no fluxo social, sempre será uma condição imposta de mando-controle contra a vontade. É isso?

Marcelo,

não há um conhecimento correto ou uma opinião correta (orto-doxa) sobre essas coisas. São visões. A única coisa que posso fazer ao comentar seus posts é expor minhas visões. Você pode concordar ou não com essas visões. Pode argumentar para mostrar suas inconsistências. Eu posso treplicar. E podemos gerar conhecimento novo nessa interação. Este é o propósito da Escola-de-Redes: não partir de um legado, de um núcleo de concepções a partir do qual vai se comparar todas as demais opiniões. Por isso é uma não-escola.

 

 
Marcelo Maceo disse:

Augusto, agradeço muito os seus comentários. E tbm sua paciência em buscar re-explicar tanta coisa, rs. Está me ajudando muito a compreender melhor estes conceitos, e acredito que a muitos outros tbm deve ajudar. Já percebi que tem coisas que refletem um erro de entendimento mesmo, em outras percebi aquelas convicções arraigadas com fim próximo que em mim buscam sobreviver de alguma maneira (rs), mas em outras, como disse, eu realmente postei o texto sem pensar melhor e aprofundar exemplos e ou melhorar argumentos.

Vou aguardar o restante de seus comentários, e ao mesmo tempo pegar um fôlego aqui pra buscar me readequar a novas visões, e em seguida vamos trocar outras impressões. Valeu!

Vou comentar seus comentários depois de comentar o texto principal. Por ora, esclareço o seguinte apenas (e o esclarecimento faz sentido para mim): centralização é hierarquia na rede social. Em todas as outras redes não é.

 

 
Marcelo Maceo disse:

Augusto, não me segurei aqui. Lá vai outros comentários, rs.

Me ajude a definir, o que seria a rede-mãe? Meu entendimento é como se fosse TODA a rede social (e aqui, já foco apenas na rede formanda por pessoas) que incluir todas as outras redes menores que co-existem dentro dela. Dentro desta rede-mãe, temos todos os tipos de redes menores, fenômenos, dinâmicas, topologias possíveis?

Depois, eu sei que é algo dificil de mensurar ou observar, mas esta rede-mãe seria algo completamente neutro, ou podemos postular que talvez exista algum tipo de força inerente a ela, que busque sempre uma distribuição maior? Coloco esta visão pela própria razão da origem das bolhas, dos small-bangs, atribuindo este surgimento não a um esforço individual ou da vontade de nodos, mas a uma própria auto-regulação da rede.

Se podemos enxergar esta rede-mãe de um ponto de vista mais macro, e vendo ali ocorrendo inclusive hierarquias, não podemos entender que ou um certo (des)equilíbrio deva ser mantido (de forma auto-regulatória pela própria rede) para que sua dinâmica seja mais rica?

É dificílimo não fazer analogias com o que observamos em outras redes, que não humanas, para tentar exemplificar o que quero dizer. A despeito disso, gosto do desafio, e também me agrada muito a proposta de que a rede social humana é um universo completamente diferente e próprio, em relação a outras redes.

 

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Atrair a atenção não tem a ver com centralização. Nem mesmo exercer influência tem a ver. Centralização significa que o fluxo deve passar obrigatoriamente por um caminho e não por outro.

Augusto, eu realmente não consigo entender isso. Me ajude. Veja por exemplo a hierarquia militar (pleonasmo! rsrs), se sou sargento e quero falar com o capitão, devo passar pelo tenente. Eu entendo que vc diz que isso é hierarquia e um tipo de centralização (que gera hierarquia). Mas eu não sou obrigado a fazer isso. Eu posso, se quiser, falar direto com o capitão. Claro, terei consequências, mas apesar disso eu não sou obrigado. Dependendo do que for, nem consequencia terei. O mesmo se sou um pedreiro e quero dar idéias direto ao engenheiro. Enfim, só quero dizer que uma topologia centralizadora se configura seja tendo suas regras, exercendo sua influência ou atraindo minha atenção, e em qualquer dessa situações eu posso ter “n” consequencias se me desviar da atenção, da influência ou das regras, pois este direcionamento, apesar de conduzir, não é obrigatório. Eu entendo que eu passo a ser realmente obrigado a alguma coisa se eu sou compelido a fazer algo contra a minha vontade.

Por isso digo que a topologia não gera hierarquia (apesar de eu entender que a topologia é necessária para a hierarquia funcionar), mas sim, a hierarquia está no fato de eu querer subjugar o outro me aproveitando da estrutura em que nos configuramos. Me parece algo que está mais no espaço-tempo dos fluxos do que no espaço-tempo físico.

 

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Gravitatem como fenômeno humano-social (também atribuída, às vezes, à líderes carismáticos) é um deslizamento de um conceito físico. Comparações como estas naturalizam a hierarquia. Mesmo usadas como metáforas induzem à compreensão de que existem correspondências no mundo não-humano com o mundo social.

 

Veja bem, quando escredi este texto, meu entendimento é que hierarquia e centralização são coisas diferentes, logo, a comparação teve o intuito sim de naturalização, não da hierarquia, mas da centralização. Não sei se é proposital, ou um problema mental meu (haha), mas me parece nos seus textos que toda centralização necessariamente implica em gerar comportamentos hierárquicos ou hierarquia.

 

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Quando suas idéias podem mudar comportamentos?

Também gostaria de aprofundar a questão de que somente comportamentos mudam comportamentos, ou seja, uma idéia não muda as pessoas. Eu concordo com isso. Mas é algo que me parece válido somente em ambientes quando o campo social for muito mais hierárquico (e não centralizados, até que eu entenda melhor isso), ou em campos muito mais distribuídos (uma vez que alguém querendo impor hierarquia em tais ambientes tbm não mudará o comportamento dos outros). Porém, quando temos um grupo de pessoas cujas idéias são comuns ou se afinizam, a idéia deste grupo gera força suficiente para mudar seus comportamentos, seja qual for a idéia (se hierarquizante ou não), pois a nuvem social parece se adensar o suficiente para mudar o campo social em que estão inseridas. E penso que isso possa ocorrer sem ser nada imposto. Se a coisa for por aí, eu me pergunto também se uma pessoa com uma idéia não conseguiria atrair de alguma forma pessoas afinizadas com sua idéia até o momento em que pudessem mudar o campo social. Ou seja, persista e aguarde (?).

Eu estou refletindo sobre isso, porque continuo com o entendimento de que a hierarquia é algo que advém muito mais da nuvem social do que do campo social, ou seja, me parece que o software (uma idéia) modifica o hardware, e este software é a hierarquia. E, Augusto, sobre isso, vc me parece concordar, ao dizer no livro Hierarquia pag 18: “Um software que modifica o hardware. Um hardware que, uma vez modificado, induz a replicação do software; ou seja, instala automaticamente o programa nas pessoas que a ele se conectam.”

 

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O parágrafo acima infere uma conclusão que não deriva dos exemplos citados acima. "Percebe-se que existe, portanto, momentos etc.". Há um ab uso da palavra "portanto". Que dinâmicas físicas ou biológicas afetam e interagem conosco, parece óbvio. A questão é o que significa a palavra "conosco". Afetam o nosso corpo físico, por certo. Afetam nossas dinâmicas bioquímicas e biofísicas, por certo. Mas daí não se pode concluir que afetem a nuvem social humana, não, pelo menos, da mesma forma, ou mesmo de qualquer forma comparável. O tipo de interação física (gravitacional, eletromagnética, forte e fraca), biofísica ou bioquímica, não é o mesmo tipo de interação social. Em outras palavras: não se pode ter uma mesma explicação - de mesmo status epistemológico - para fenômenos físicos, biológicos e sociais. Não se pode derivar uma sociologia e uma política da física ou da biologia. E nem se pode ter uma meta-explicação que dê conta de explicar todos esses diferentes tipos de fenômenos. Quando a ciência das redes percebe fenômenos que se aplicam tanto a sistemas físicos, biológicos e sociais, ela não se qualifica para explicar a especificidade desses fenômenos nos terrenos físicos, biológicos e sociais. Ela não substitui todas as ciências por ela mesma. Apenas reconhece padrões de interação homólogos no mundo físico, biológico e social, mas não explica todos os demais padrões específicos que ocorrem em cada um desses mundos.

 

Augusto, muito legal mesmo isso que vc escreveu sobre derivações e meta-explicações. Realmente, sempre foi uma tendência minha pensar assim. É muito novo pra mim a questão de explicações completamente diferentes e não conectadas entre os multiversos. E estou adorando ter contato com esta novidade, hehe! Mas me permita deixar aqui apenas que também me parece óbvio que as interações que não sociais nos afetam radicalmente. Eu não tenho hoje conhecimento para poder tentar validar este “osso meu”, rs, mas além de entender que dinâmicas físicas (como a gravidade, a luz, atmosfera etc) e biológicas/bioquímicas (hormônios, configuração neuro-vegetativo, formação óssea, interação com outros seres vivos) afetam diretamente nosso comportamento, me parece que a busca destes entendimentos ou descobertas pelo homem no decorrer da história também influencia diretamente seu comportamento. Ou vc acha que se a gravidade mudasse, se tivéssemos mais dia que noite, menos oxigênio, ou se descobríssemos algo completamente novo na natureza (algo como comparar o comportamento humano desde Newton, e as idéias que estão influenciando nossa sociedade pós-einstein), nós continuaríamos daqui 10 anos se comportando da mesma forma como se isso não influísse em nada? O quanto tudo isso está misturado ou não? Mas vou pensar e repensar melhor sobre tudo isso Augusto.

 

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Talvez seja melhor não pensar em um universo e sim em multiverso. Os universos físicos não são os mesmos que os universos sociais. A tentativa de uma explicação única evoca o desejo de uma unidade primeva geradora de tudo, um esquema cósmico geral, uma espécie de árvore da vida que contenha um esquema explicativo para tudo que foi, é e será. As relações do humano (do primata bípede da espécie biológica Homo) com o mundo não-humano existem, por certo, mas não são relações sociais. Eis o ponto.

 

Sim, sim, captei!

 

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Novamente aqui me parece que a conclusão não faz parte do argumento. "Fica evidente que existem, portanto..." Não fica evidente. Não vi nenhum argumento forte o suficiente para mostrar que fenômenos naturais criam topologias mais centralizadas que distribuídas. Não vi, por exemplo, um só exemplo, que se aplique à dinâmica da vida. E interpretar a gravidade como centralização meio que força a barra. A energia escura levaria à que então? À distribuição? Os conceitos topológicos de redes não se aplicam bem aqui. A gravidade pode não ser vista como uma atração centralizadora e sim como uma deformação no espaço-tempo ou como a consequência de um referencial acelerado (como no Princípio da Equivalência de Einstein, do elevador que sobe com aceleração g). Mesmo quando se diz, na hipótese gravitacional tradicional, que os corpos se atraem na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância entre eles, não se está dizendo que um corpo atrai o outro (que um é o centro): eles se atraem mutuamente e vão se encontrar num ponto que corresponde ao centro de massa da configuração. Como a gravidade se estende por todo o universo... todos os corpos se atraem e não é possível identificar uma espécie de centralização de rede nesse processo. Entendo que há aqui mais uma vez uma tentativa de projetar, sobre o funcionamento do universo físico clássico, fenômenos que foram percebidos em sistemas complexos (e redes são sistemas dinâmicos complexos e estruturas que se desenvolvem e não é a toa que dificilmente podem ser percebidas em outros sistemas e estruturas).

 

Cool Augusto! Adorei tudo. Mas então vamos afinar os entendimentos.

Se eu quiser começar a forçar a visão de que coisas aparentemente centralizadas são em verdade distribuídas, me parece o mesmo de quer forçar a visão de que hierarquias existem por toda parte. Por isso no texto eu digo que não há problema nenhum se uma topologia se apresenta as vezes como mais distribuída ou mais centralizada, a hierarquia é outra coisa. O ponto de divergência me parece ser o entendimento que temos sobre centralização. Me diga se para vc, qualquer topologia observável, em qualquer meio, que configure um grafo mais “centralizado”, é qualquer outra coisa menos centralização. E qualquer comportamento observável que tenha o poder ou a condição para exercer uma relação de mando-controle é hierarquia, e que também é sinônimo para centralização. É isso? E se for, não entendo ainda porque isso estaria correto.

 

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Uma rede será distribuída a não ser enquanto se centralize por algum motivo. Isso é quase uma tautologia. Se for um sistema que possa ser descrito como uma rede, tais centralizações podem ocorrer por vários motivos e não há nenhuma valoração de bem e mal aqui. Aliás, nem mesmo em redes sociais pode-se, a rigor, dizer isso.

 

Vish, agora é que não entendo mais nada, hahaha. “centralizações podem ocorrer por vários motivos” mesmo sem que tais centralizações configurem comportamentos hierárquicos? aqui tem a ver diretamente com o entendimento anterior que escrevi neste comentário.

 

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A centralização na rede social aconteceu. É irrelevante se por vontade dirigida. Supõe-se que uma configuração particular se constelou e teve condições de se replicar, mas não sabemos como. E talvez nem tenha sentido perguntar por que. Mas isso não nos autoriza a supor que podem ter ocorrido espontaneamente ou naturalmente. O que seria espontaneamente? O que seria naturalmente? Natural tem a ver com algo como "natureza" (ou vida)? Tem a ver com alguma lei do universo físico? O que significam essas palavras? A reação de uma pessoa diante de um tornado não pode levá-la "naturalmente" a centralizar a rede social de que faz parte: ela segue primeiramente seu sistema límbico, foge, preserva a sua vida seguindo uma deriva natural (e aqui faz sentido o uso da palavra "natural"). Reage primeiramente como qualquer animal exposto ao perigo. Mas não elimina conexões nem corta caminhos de outras pessoas estruturando um modo de vida em que isso seja funcional para a constituição de seu fenótipo. Aqui fica mais evidente a confusão.

 

A idéia que quis passar era de que um tornado, ou uma pessoa com uma metralhadora, ameaçam a liberdade da pessoa ao exercerem poder sobre ela. É o entendimento que coloquei em outro ponto deste comentário, de que há hierarquia se sou impelido a fazer algo contra minha vontade. E o exemplo radical é a ameaça à nossa vontade de viver. É um extremo poder que nos influencia, condiciona fluxo etc, e faço analogia disso com qualquer topologia centralizadora onde funcione hierarquia.

 

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"Envenenada com um comportamento hierarquizante"? Ora, não há comportamento hierarquizante independente do padrão de organização. Estamos falando de um atributo do padrão de organização. A competição é isso, e nada mais. Assim como a cooperação. Não é o resultado da eclosão de um ovo da serpente que cada humano traria em si (ou do pecado original). "Liberdade do fluxo de se centralizar espontaneamente de acordo com sua dinâmica"? O que seria isso? Qual a dinâmica intrínseca que levaria o fluxo a não-fluir (sim, porque é disso que estamos falando)? O fluxo só existe enquanto flui!

 

Pois é, acho que vc conseguiu entender meu ponto de vista. É diferente do que vc colocou aqui Augusto. Eu entendo sim que toda hierarquia possui um padrão de organização semelhante, mas propuz fazermos o exercício de pensar se realmente em todo padrão centralizador necessariamento se forma hierarquia (no sentido comportamental, e não do grafo, uma vez que separo a topologia centralizadora do comportamento hierárquico).

E quando falei sobre o fluxo, é justamente por entender que para ocorrer este fluir as vezes seria necessário centralizar. Sobre isso em específico, eu gostaria de pensar melhor, para ilustrar com exemplos que acredito encontrar na história.

 

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A rede não é uma realidade metafísica preexistente aos fenômenos interativos. Quando há interação que pode ser captada como um sistema complexo ou como uma estrutura capaz de se desenvolver dizemos que há rede. Mas o status epistemológico (da explicação) não pode ser confundido com um status ontológico.

 

Obrigado Augusto, novamente aqui, minhas tendências arraigadas com outra linha de pensamento... rs.

 

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Centralizar significa impedir o livre fluir. O fluxo é fluição. Quando há centralização há um óbice à fluição. Não há um fluir que se expresse como um não-fluir.

 

Ok, mas novamente, a sua idéia de centralização está associada como um sinônimo à hierarquia, correto? Não há centralização sem hierarquia, pois dinâmicas ou grafos que se conformem aparentemente como centralização na verdade não o são, simplesmente porque não há centralização espontânea no fluxo social, sempre será uma condição imposta de mando-controle contra a vontade. É isso?

Concordo contigo Augusto. Esta é minha intenção tbm. Não quero chegar no que é certo ou errado, mas sim, eu gostaria de entender como vc entende, para que ao tomar contato com seus textos ou em outras conversas, eu não gere outras interpretações. E sim, acho que nosso propósito em comum aqui, não é estabelecer o que seria certo ou errado, e eu nem estou preocupado em chegar a alguma conclusão. O simples fato de estabelecermos esta troca já está me fazendo entrar em contato com outras idéias, esta troca aqui influencia meu comportamento. E isso é o que mais vale!



Augusto de Franco disse:

Marcelo,

não há um conhecimento correto ou uma opinião correta (orto-doxa) sobre essas coisas. São visões. A única coisa que posso fazer ao comentar seus posts é expor minhas visões. Você pode concordar ou não com essas visões. Pode argumentar para mostrar suas inconsistências. Eu posso treplicar. E podemos gerar conhecimento novo nessa interação. Este é o propósito da Escola-de-Redes: não partir de um legado, de um núcleo de concepções a partir do qual vai se comparar todas as demais opiniões. Por isso é uma não-escola.

 

 
Marcelo Maceo disse:

Augusto, agradeço muito os seus comentários. E tbm sua paciência em buscar re-explicar tanta coisa, rs. Está me ajudando muito a compreender melhor estes conceitos, e acredito que a muitos outros tbm deve ajudar. Já percebi que tem coisas que refletem um erro de entendimento mesmo, em outras percebi aquelas convicções arraigadas com fim próximo que em mim buscam sobreviver de alguma maneira (rs), mas em outras, como disse, eu realmente postei o texto sem pensar melhor e aprofundar exemplos e ou melhorar argumentos.

Vou aguardar o restante de seus comentários, e ao mesmo tempo pegar um fôlego aqui pra buscar me readequar a novas visões, e em seguida vamos trocar outras impressões. Valeu!

Combinado!



Augusto de Franco disse:

Vou comentar seus comentários depois de comentar o texto principal. Por ora, esclareço o seguinte apenas (e o esclarecimento faz sentido para mim): centralização é hierarquia na rede social. Em todas as outras redes não é.

 

Sobre Neo como uma espécie de sannyasin (é um apontamento lateral na conversação). 

Escrevi no livro Hierarquia que Osho, assim como Krishnamurti e o Tao – e inclusive o Zen, quando desligado das aderências religiosas do budismo, atuando como um programa antivírus, ou um game de desconstituição de certezas – podem ser de muita ajuda no esforço de sair da Matrix. Mas isso desde que nos libertemos de toda reverência religiosa em relação ao que esses caras e essas correntes pregaram.

O caso de Osho é notável porque ele era um cara muito maluco, que disse muita besteira e, mesmo assim, tinha insights extraordinários, brilhantes. Fico aqui pensando como seria legal reler algumas coisas que ele falou e alguém escreveu considerando não mais o indivíduo (como ele fazia), mas a pessoa como emaranhado... Em particular reler aquele seu célebre discurso de 20 de outubro de 1977, no Buddha Hall, intitulado "Sannyas: entrando no fluxo" (décima parte do The Heart Sutra) porém tomando o sannyasin como uma pessoa comum e não como alguém possuidor de características distintivas, com aquelas nove qualidades desejadas que ele apontou no discurso. Não como um contingente sobre o qual alguém pudesse dizer (como ele disse): "o meu sannyas" ou "os meus sannyasins", mas como uma possibilidade aberta a qualquer um de negar tal condição e inventar novas condições de expressão das potencialidades humanas (exatamente como ele fez, consigo mesmo).

Para quem não conhece o discurso, aqui vão excertos em PDF para download.

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