Escola de Redes

O QUE VAI ACONTECER COM A ESCOLA-DE-REDES EM 2009?

A Escola-de-Redes é uma rede distribuída de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de netweaving. É uma escola em dois sentidos: no sentido estrito, de ambiente favorável à interação educativa e no sentido mais geral de think tank. Mas não é apenas um espaço de estudo e elaboração ao estilo acadêmico. É também um campo de compartilhamento de informações e de experiências concretas que envolvam redes sociais. O lema E=R: 'A Escola é a Rede' sintetiza esse caráter inovador - e não hierárquico - da iniciativa.

Mas no momento em que optamos por articular a Escola-de-Redes como uma rede distribuída, abrimos mão do planejamento normativo. Ou seja, por exemplo, não podemos dizer 'o que vai acontecer' com a Escola-de-Redes em 2009 (que conta agora, quando reescrevo este texto, com 506 conectados e meia dúzia de nodos). No momento em que estabelecemos como única condição para entrar na Escola (além, é claro, de concordar com os seus objetivos), abrir mão de formas hierárquicas (centralizadas) de organização, ficamos à mercê da emergência, do que vai "rolar" na rede a partir do processamento em paralelo de múltiplos inputs. Para que esse processo ocorra precisamos, tudo indica, de quantidade, de diversidade e de conectividade-distributividade. Por isso é bom que o número de conectados seja grande, ao contrário do que poderia sugerir nossa experiência pretérita de formação de grupos criativos, em geral de tamanho bastante reduzido. E aqui chegamos ao ponto. Comunidades de investigadores não podem ser muito grandes, pois isso inviabiliza a polinização mútua das idéias em um âmbito de conversação em que todos podem acompanhar o que todos dizem. Por outro lado, dentre as condições capazes de ensejar processos de inteligência coletiva (que dão um salto em relação a soma das inteligências individuais reunidas), figura necessariamente aquela que exige cooperação em grande número de inter-agentes. E agora?

A única resposta que vejo para esse impasse - e a única alternativa à centralização - é a clusterização. Na medida em que o número de conectados aumenta (se for mantida, é claro, a conectividade-distributividade), a tendência é a aglomeração por afinidade, por localidade, por ação ou campanha, enfim, por agenda compartilhada. Daí a minha insistência em incentivar a formação de Nodos da Escola-de-Redes. Penso que, se não fizermos isso, entraremos, já em 2009, em uma curva descendente. Gente que se conectou nos meses finais de 2008 perderá todo incentivo em continuar acompanhando as atividades da Escola em meados de 2009 (ou, quem sabe, até antes). E logo se cansará de abrir este site no NING para ver quem postou uma mensagem, quem marcou um evento, quem propôs uma discussão. Viraremos uma "rede social" naquela inadequada denominação comumente atribuída aos sites de relacionamento (embora alguns desses sites sejam bastante ativos e, inevitavelmente, pouco criativos).

Sem agenda compartilhada não tem escola. E a não ser em certos períodos bastante fugazes (como os que ocorrem, por exemplo, em um swarming), é difícil compartilhar agenda com multidões ou com grupos muito grandes de pessoas. Estima-se que uma pessoa consiga manter um relacionamento freqüente e interativo com não muito mais do que 100 pessoas. A menos que queiramos centralizar a escola e, a partir de um centro coordenador ou animador, ficar promovendo atividades no padrão um-para-muitos (broadcasting, inclusive nos dois sentidos, isto é, muitos para um - ou poucos). É claro que, em alguma medida, isso sempre vai acontecer: por exemplo, estamos planejando, a partir do Nodo-de-Curitiba, um mega-encontro (a Conferência Internacional sobre Redes Sociais) e esse nodo - mesmo que não queira - vai acabar assumindo, em relação a essa ação, um papel temporariamente centralizador. Mas o importante é que muitas outras ações sejam promovidas por outros nodos e pessoas, de sorte que a rede geral que constitui a Escola não fique monopolarizada, mesmo que por um breve tempo. A rigor, a multiplicação dos centros leva à uma maior distribuição: ao contrário do que alguns imaginaram a topologia descentralizada não é um padrão de organização (como sugerem, à primeira vista, os diagramas de Paul Baran): há um espectro que vai do grau máximo de centralização ao grau mínimo (ou ao grau máximo de distribuição) ou vice-versa (como já mostrei - espero - ao aventar um Índice de Distribuição de Rede).

Novamente, qual é a solução? Exatamente a mesma! Multiplicar as comunidades de aprendizagem, de investigação e de experimentação dentro da Escola-de-Redes. Não uma comunidade apenas, mas uma rede de múltiplas comunidades, elas mesmas, por sua vez, articuladas em rede distribuída (e não como enclaves hierárquicos dentro da rede distribuída). Sim, o modelo é fractal, só pode ser fractal. A Escola-de-Redes é a rede geral e cada nodo (formado intencionalmente e não-intencionalmente, por efeito de clustering) é a escola toda.

Exibições: 139

Responder esta

Respostas a este tópico

Por sugestão do Egeu, transferi para cá o conteúdo uma mensagem de blog de mesmo título que já havia acumulado 14 comentários.
Peço perdão a todos, mas acho que me expressei mal. A pergunta que dá título a esse post é retórica. Não é para ser respondida. Não estamos promovendo nenhum processo coletivo de planejamento. Aliás, a mensagem é exatamente sobre isso. O texto afirma que "não podemos dizer 'o que vai acontecer' com a Escola-de-Redes em 2009. No momento em que estabelecemos como única condição para entrar na Escola (além, é claro de concordar com os seus objetivos), abrir mão de formas hierárquicas (centralizadas) de organização, ficamos à mercê da emergência, do que vai "rolar" na rede a partir do processamento em paralelo de múltiplos inputs " [e não - aduzo agora - de um processo tradicional de planejamento]. Assim, a meu ver, não devemos dizer o que vai acontecer com a Escola-de-Redes em 2009. Esse é o sentido do "deixar rolar"... O debate aqui é sobre a natureza e o caráter desse processo e não para simular um processo coletivo de planejamento normativo ao estilo tradicional.
(...) "A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem intencionadas que seja, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, gogues ou magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência. As ongs tem a tremenda virtude de não serem governamentais, mas contam com a imperdoável falha de serem organizações. Repita comigo: as instituições não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém.
Eu, pode estar certo que não vou." (...)

Excerto de Paulo Brabo no post Microsalvamentos -como salvar o mundo um instante de cada vez, em seu blog A Bacia das Almas.
Olá Augusto
Estou muito motivado pela oportunidade de participar desse modelo fractal. Confesso que, embora trabalhe profissionalmente em redes há muito tempo, é a primeira vez que poderei observar esse processo de diferenciação celular, e estou muito curioso para ver como caminha o tradeoff descentralização vs coordenação (sim, pensando coordenação distribuída mas, ainda assim, coordenação).

Só ouso discordar da seguinte frase: " ficamos à mercê da emergência, do que vai "rolar" na rede a partir do processamento em paralelo de múltiplos inputs" [e não - aduzo agora - de um processo tradicional de planejamento]. ", pelo seguinte:
- acredito que processos possam ter o poder de induzir e facilitar a emergência, portanto não estamos "à mercê", e sim temos o poder de criar esses processos.
- nesse caso teríamos algo que não é um processo tradicional de planejamento, nem um sistema puramente autopoiético, e sim algo que conta com a vontade e competência coletiva de seus membros.
- ou seja, mais competência => mais emergência.

Sei que este é um assunto polêmico, que talvez mereça um fórum específico, mas desde já gostaria de sugerir alguns mecanismos práticos que podem contribuir nesse sentido:

1. algum espaço (um post?) para inscrição de temas candidatos à formação de clusters
2. um calendário que contenha as agendas dos vários grupos, permitindo que todos possam se conectar ou desconectar na medida em que os temas comecem a adquirir maior consistência num grupo ou noutro.
3. nesse calendário, ter bem visível os eventos mais amplos, como o encontro de Curitiba.

Proponho também um nodo: pessoas envolvidas com formação de comunidades virtuais em instituições (empresas ou governos), e especialmente comunidades de prática. Embora o tema não seja regional, gostaria de começar com pessoas que estejam em SP, para que possam rolar encontros presenciais também. Nesse caso, para fazer o "marketing", eu pergunto: quais os melhores mecanismos no ning para que outros interessados apareçam? Poderíamos ter algo do tipo anúncio para divulgar as propostas de iniciativas e recolher inscrições?

Um grande abraço

Sérgio Storch
A experiência de uma rede distribuída é muito nova mesmo, caro Sergio, inclusive para mim. Deixando de lado, por ora, sua questão mais de fundo - sobre a facilitação da emergência - creio que os mecanismos que você sugere são bastante oportunos. Você mesmo pode tomar a iniciativa de propô-los, quer para a rede geral, quer para um nodo - Grupo aqui no NING - (como o de São Paulo, por exemplo). Tudo isso pode ser viabilizado por meio de fóruns específicos ou pode ser desencadeado também por uma mensagem de blog compartilhada. Ademais, qualquer conectado pode abrir um tópico de discussão (e a "regra" que estamos adotando, meio por intuição, é a seguinte: um fórum aberto que não tem pelo menos dois comentários de pessoas diferentes em 10 dias, deve ser fechado). Forte abraço.
Prezado Sergio,
Assim como o Augusto também estou aprendendo a manejar esta ferramenta. Quanto aos mecanismos do Ning me parece que a clusterização se dá através da criação de Grupos Temáticos (com seus tópicos de discussão). O chamamento à criação desses Grupos tem maior visibilidade no Fórum, mas nada impede que você poste como mensagem de blog. Tanto Fórum quanto Blogs aparecem na página inicial na coluna do meio. O sistema de criação de "amigos" permite também que você envie (como usuário) para todos eles uma mesma mensagem.

Não encontrei maneira de obter um relatório dos assuntos de cada Grupo a não ser feito "à mão" o que demandaria muito trabalho do administrador da rede. Mas você pode acompanhar a criação dos tópicos de debate no "Últimas Atividades" também na coluna central.

Quanto aos eventos o melhor local me parece ser a própria seção Eventos onde há espaço inclusive para confirmar sua presença (um sistema de RVSP).

Espero ter ajudado. Vamos em frente!
Caro Augusto
Muitas vezes me sinto confusa com comentários oriundos de pessoas tão intelectualizadas!
Escola de redes.Para mim,professora desde 1970,lidando dia a dia com crianças,com problemas,com crianças- problemas,hoje psicopedagoga,apenas para viabilizar mais o meu entendimento do por que essas crianças não aprendem,onde está esse nó,que tanto atrapalha a aprendizagem...já forma uma rede.
Rede esta constituída por pessoas que querem,ou por pessoa que quer,conforme o comentário do Egeu.|Ele diz:"as instituições não existem,só existem pessoas".E é isso mesmo.
No que diz respeito ao meu campo tão insignificante,tratado com tanto desprezo pelos governantes,formar uma rede com pessoas que querem alfabetizar,por exemplo:
No meu caso,alfabetizei em 2008,108 crianças.70% delas,analfabetos funcionais.
Consegui sim,mas porque eu insisti em querer.Insisti em não desistir de nenhum deles,que passavam perla minha mão de 2 em 2 horas,3 vezes por semana.Por que as escolas não alfabetizam?Por que,as crianças passam de ano sem saber ler nem escrever?Talvez porque não seja imteresse do Governo,termos pessoas letradas.Talvez.Não sei.Só sei que vou aqui tecendo minha própria rede,e ela está comprometida com a educação.Educação de base. Com crianças,que precisam muito mais de atenção,carinho,do que de escolas onde um senta atrás do outro,igual a gafanhoto.
Tereza.
.
.
Parabéns.

Parabéns por colocar tão bem em palavras o que nos move.

Independentemente da forma como cada um escreve, é este tipo de sonho e idealismo que move todos nós.

É deste material que é composto nossos sonhos.

.
.
Muito bem Tereza, o mundo continuará existindo, até quando houver pessoas como você, eu e tantos outros que fazem coisa pequenas no dia a dia e constroem uma outra realidade para pessoas que precisam ver o mundo de modo diferente. estou contente em fazer parte desta Rede, pois aqui me identifico com pessoas como eu. Solidaria, conciesnte e multiplicadora. Abraço. Horacia Alves.

Tereza Cristina Gonçalves Vaz said:
Caro Augusto
Muitas vezes me sinto confusa com comentários oriundos de pessoas tão intelectualizadas!
Escola de redes.Para mim,professora desde 1970,lidando dia a dia com crianças,com problemas,com crianças- problemas,hoje psicopedagoga,apenas para viabilizar mais o meu entendimento do por que essas crianças não aprendem,onde está esse nó,que tanto atrapalha a aprendizagem...já forma uma rede.
Rede esta constituída por pessoas que querem,ou por pessoa que quer,conforme o comentário do Egeu.|Ele diz:"as instituições não existem,só existem pessoas".E é isso mesmo.
No que diz respeito ao meu campo tão insignificante,tratado com tanto desprezo pelos governantes,formar uma rede com pessoas que querem alfabetizar,por exemplo:
No meu caso,alfabetizei em 2008,108 crianças.70% delas,analfabetos funcionais.
Consegui sim,mas porque eu insisti em querer.Insisti em não desistir de nenhum deles,que passavam perla minha mão de 2 em 2 horas,3 vezes por semana.Por que as escolas não alfabetizam?Por que,as crianças passam de ano sem saber ler nem escrever?Talvez porque não seja imteresse do Governo,termos pessoas letradas.Talvez.Não sei.Só sei que vou aqui tecendo minha própria rede,e ela está comprometida com a educação.Educação de base. Com crianças,que precisam muito mais de atenção,carinho,do que de escolas onde um senta atrás do outro,igual a gafanhoto.
Tereza.
Eu acredito que a inclusao de novas pessoas a Escola de Redes é que faz a mesma continuar.Mais nodos serao criados.Foi usado o termo Polinização mutua das ideias.Creio que a inclusao ou fusao de Escola de Redes sociais com a criação de uma Escola de redes Ambientais, Escola de redes Socioambientais.A inclusao digital é uma realidade, mais continua muito pontual, na escola do meu filho, so tem um computador.No Educando de 1996, no Anhembi, o saudoso Mario Covas e outros politicos ainda vivos disseram que teriamos no proximo ano, um computador para cada aluno em sala de aula no Brasil.Hoje 2009, ja se fazem 13 anos e nao alcançamos esta realidade.Daí eu creio se fizermos realmente uma inclusao digital e nao pontual.Teremos uma Colheita com esta polinização.

Responder à discussão

RSS

© 2019   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço