Escola de Redes

O ENEM e a falência dos modelos atuais de gestão.

Resolvi trazer para cá esse texto que também está no meu blog. Comecei escrevendo sobre o ENEM e acabei chegando no inevitável. A REDE.
Sobre as trapalhados do ENEM, concordo com o colunista Elio de Gaspari quando afirma que “A realização da prova em papel é arriscada, megalomaníaca e anacrônica” (disponível para assinantes da Folha). Não é possível imaginar 4 milhões de pessoas respondendo questões em papel quando dispomos de tecnologias avançadas. No ano passado, quando da primeira encrenca do ENEM tive conversas informais com técnicos próximos ao MEC. Discutimos sobre uma idéia básica: Pensar grande, começar pequeno e ser persistente. Isso com relação à adoção de meios eletônicos (tablets, smartphone, XBOX, internet…) para introduzir gradativamente novas formas de avaliação. Os testes de certificação em idiomas e as certificações em tecnologias da informação já fazem isso com sucesso.
O que impede isso? Vendo a nova trapalhada penso que o modelo burocrático de gestão impede o MEC de pensar diferente. Recorro ao excelente livro “The Wall Street Journal Essential Guide to Management”, de Alan Murray, cujo artigo publicado recentemente afirma que o modelo atual de gestão está falido pois a burocracia existe para preservar o status vigente, sendo, por definição, resistente às mudanças.
Modelo definido: O MEC determina ao INEP que contrate uma empresa especializada e realize o concurso. O INEP contrata uma gráfica, contrata o transporte. A empresa contrata os fiscais, contrata a salas, etc. Tudo isso é modelo atual de gestão, que segundo Alan Murray está com crise de identidade e fadado a desaparecer.
Qual seria a solução?
A solução está na REDE. Na Internet? Não, no modelo de rede. Ainda sou aprendiz nesse assunto pois pertenço à geração que deu forma ao modelo de gestão atual. Esse que está falido. Recorro a Augusto de Franco que afirma: Tudo o que é sustentável tem padrão de rede. De Franco afirma:
“Qualquer pessoa ajuizada sabe que não é viável desmontar os modelos de gestão hierárquicos atuais – predominantemente baseados em comando e controle, mas que mal ou bem estão funcionando – sem ter o que colocar no lugar. Da mesma forma, parece óbvio que a mudança para uma empresa-rede não poderá ser feita abruptamente ou de uma vez. O que significa que um novo padrão (em rede) terá de surgir convivendo com o velho padrão (hierárquico) e que, portanto, deverá haver uma transição.”
O caro leitor pode desfrutar dessas idéias na publicação: Escola de Redes – tudo o que é sustentável tem padrão de rede. Está disponível no 4share grátis.
Umas dicas iniciais: Nodos de uma possível rede: As universidades federais que usam os dados do exame, entidades sociais que tem a educação como luta pela melhoria, Cientistas e pesquisadores, associação dos alunos do ensino médio, secretarias estaduais de educação. Augusto, acho que você vai ter que entrar nessa conversa.

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Respostas a este tópico

Caro Evaldo
Acho que o processo do ENEM tem uma etapa, a mais crítica, que me parece ser necessariamente centralizada: a construção das provas). Mesmo que a produção das questões viesse a ser em rede (claro que pode ser), a aprovação da prova final tem que ser feita de forma centralizada.
A execução da prova pelo aluno JÁ É descentralizada, e tira partido da pulverização e capilaridade dos espaços disponíveis para isso. Me parece que para evitar o erro de impressão de parte das provas requer mais centralização, não menos. . Ou seja, no limite, apenas 1 pessoa poderia ter acesso ao layout final, e ser a única responsabilizável por vazamentos.

Acredito que o avanço necessário nesse caso não está na arquitetura de rede, e sim em empurrar a impressão das provas para as pontas, com a impressão na hora, ou seja, não haver nenhuma possibilidade de alguém ver a prova antes dela sair do forno, já no local onde será entregue. Portanto, a meu ver, é uma questão de logística e tecnologia (viáveis hoje), e não de organização do trabalho.

Ou seja, me parece ser um bom exemplo de que nem tudo se resolve na base de substituir hierarquias por redes. Depende do processo industrial.

Falhei em alguma parte do argumento?

Um abraço
Sérgio
Falhou, Sérgio, hehe (a meu ver, é claro) na big picture... Em uma educação em rede, não haveria provas!

Mas enquanto a educação (a aprendizagem, bem-entendido) não é em rede, a solução para a logística de uma prova nacional imposta pelo modelo atual de ensinagem, talvez possa ser experimentada com alguma coisa que funcionasse como a "urna eletrônica". Já fiz assim uma prova para renovar carteira de habilitação. Poderiam ser usados computadores mesmo. O sistema embaralharia as questões de modo aleatório para cada estudante. E corrigiria uma por uma considerando a ordem em que foram respondidas. Do ponto de vista técnico não parece complicado. Mas não é bem rede, convenhamos.
Augusto, é, não é bem rede, mas já vamos chegar novamente à rede. Achei o máximo a sua ideia das questões organizadas individualmente de forma aleatória. A tecnologia de impressão está pronta para isso. É UMA excelente ideia.
E agora, voltamos à rede. Se aqui, casualmente, chegamos a gerar duas ideias (a minha e a sua, bem melhor), imagine se o MEC abrisse o crowdsourcing para que ideias de soluções ainda melhores pudessem ser aportadas pela sociedade! Fica claro que o processo operacional para lidar com situação estruturada e padronizável como o ENEM não é uma situação em que a organização em rede leva vantagem, mas que o processo de inovação, não estruturada e não padronizável, será muito superior do que a inovação fechada nos gabinetes de Brasília.
Como aproveitar a oportunidade do fiasco do ENEM para projetar publicamente a ideia da inovação em rede?

Um abraço
Sérgio


Sergio Storch disse:
Augusto, é, não é bem rede, mas já vamos chegar novamente à rede. Achei o máximo a sua ideia das questões organizadas individualmente de forma aleatória. A tecnologia de impressão está pronta para isso. É UMA excelente ideia.
E agora, voltamos à rede. Se aqui, casualmente, chegamos a gerar duas ideias (a minha e a sua, bem melhor), imagine se o MEC abrisse o crowdsourcing para que ideias de soluções ainda melhores pudessem ser aportadas pela sociedade! Fica claro que o processo operacional para lidar com situação estruturada e padronizável como o ENEM não é uma situação em que a organização em rede leva vantagem, mas que o processo de inovação, não estruturada e não padronizável, será muito superior do que a inovação fechada nos gabinetes de Brasília.
Como aproveitar a oportunidade do fiasco do ENEM para projetar publicamente a ideia da inovação em rede?

Um abraço
Sérgio
Caros Sérgio e Augusto,

Como afirmei, sou aprendiz no assunto. Pensei no desafio de envolver as Secretarias Estaduais de Educação, as Universidades e outros membros de comunidade.
Até a "logística descentralizada' poderia ser assumida localmente por alguns desses atores. Esses atores locais poderiam mobilizar os meios, supervisionar a aplicação das provas pela internet a um custo menor pois são os "proprietários" dos meios. Outra possibilidade seria a adoção de certificações regionais que fossem gradativamente sendo assumidas nacionalmente. Parece que está faltando um mediador/agitador dessa possível rede. Assim como está é o MEC contra o "resto". Se prosseguir assim, vai ficar cada vez mais difícil.
Abs. Evaldo.
Evaldo
Como você vê, é preciso cuidado ao se pensar a organização em rede como panacéia.
Antes de se colocar essa possibilidade, é preciso pensar sistemicamente o problema, as alternativas de solução, a estratégia, e os processos. A questão do que centralizar ou descentralizar vem somente depois disso.

No nosso caso, se o objetivo é avaliação de uma forma que possa ser compatibilizada com o PISA europeu, e o processo é um exame nacional simultâneo em todos os lugares, colocam-se alguns pré-requisitos do processo: pontualidade, agilidade, segurança da informação etc. Aí é que se vai discutir se o modelo organizacional é mais ou menos centralizado.

Nem tudo que é centralizado é ruim, nem tudo que é descentralizado é bom.

A solução dada pelo Augusto é maravilhosa, e factível, e é centralizada. É a que melhor atende ao requisito da segurança da informação.

Portanto, cuidado para não transformar a ciência das redes num novo bezerro de ouro.

Acima disso tudo está a questão democrática, que implica participação nas escolhas, mas eficiência na operação, uma vez que as escolhas tenham sido feitas. Então há um espaço na democracia para a lógica da eficiência, e aí 5000 anos de aprendizado com hierarquias não devem ser jogados fora como um bebê junto com a água do banho.

Não devemos confundir gestão democrática com gestão sem hierarquias. A questão é o controle social sobre as hierarquias, e não a sua eliminação.

E isso nos permite voltarmos novamente ao potencial das redes neste processo. Eu havia dito antes que a construção da prova, por ser um processo de conhecimento, e não de execução pura, teria melhor qualidade numa organização em rede. Agora, o controle de qualidade do processo TAMBÉM. Ou seja, irregularidades numa prova como essa também serão mais controláveis numa organização em rede, que funcionaria melhor do que o controle através da imprensa.

Então, o que estamos fazendo agora? Destrinchando o processo, em busca dos subprocessos onde é preciso haver mais inteligência, e aplicando modelos de organização em rede para aumentar a inteligência. Isso vale para QUALQUER processo relacionado a serviços públicos (ou privados), e este é o desafio para nossa geração de cidadãos, governantes, empresários e gestores: tornar processos mais inteligentes, usando o poder das redes sociais.

Um abraço
Sérgio
Hehe, Sergio. Mas a solução do augusto é acabar com as provas!



Sergio Storch disse:
Evaldo
Como você vê, é preciso cuidado ao se pensar a organização em rede como panacéia.
Antes de se colocar essa possibilidade, é preciso pensar sistemicamente o problema, as alternativas de solução, a estratégia, e os processos. A questão do que centralizar ou descentralizar vem somente depois disso.

No nosso caso, se o objetivo é avaliação de uma forma que possa ser compatibilizada com o PISA europeu, e o processo é um exame nacional simultâneo em todos os lugares, colocam-se alguns pré-requisitos do processo: pontualidade, agilidade, segurança da informação etc. Aí é que se vai discutir se o modelo organizacional é mais ou menos centralizado.

Nem tudo que é centralizado é ruim, nem tudo que é descentralizado é bom.

A solução dada pelo Augusto é maravilhosa, e factível, e é centralizada. É a que melhor atende ao requisito da segurança da informação.

Portanto, cuidado para não transformar a ciência das redes num novo bezerro de ouro.

Acima disso tudo está a questão democrática, que implica participação nas escolhas, mas eficiência na operação, uma vez que as escolhas tenham sido feitas. Então há um espaço na democracia para a lógica da eficiência, e aí 5000 anos de aprendizado com hierarquias não devem ser jogados fora como um bebê junto com a água do banho.

Não devemos confundir gestão democrática com gestão sem hierarquias. A questão é o controle social sobre as hierarquias, e não a sua eliminação.

E isso nos permite voltarmos novamente ao potencial das redes neste processo. Eu havia dito antes que a construção da prova, por ser um processo de conhecimento, e não de execução pura, teria melhor qualidade numa organização em rede. Agora, o controle de qualidade do processo TAMBÉM. Ou seja, irregularidades numa prova como essa também serão mais controláveis numa organização em rede, que funcionaria melhor do que o controle através da imprensa.

Então, o que estamos fazendo agora? Destrinchando o processo, em busca dos subprocessos onde é preciso haver mais inteligência, e aplicando modelos de organização em rede para aumentar a inteligência. Isso vale para QUALQUER processo relacionado a serviços públicos (ou privados), e este é o desafio para nossa geração de cidadãos, governantes, empresários e gestores: tornar processos mais inteligentes, usando o poder das redes sociais.

Um abraço
Sérgio
Augusto, o Augusto deu várias soluções.

A melhor de todas foi acabar com as provas. Se o Augusto conseguir um jeito de transformar a ideia em projeto de lei, pondo algo no lugar, então dá pra resolver em pouco tempo. Mas talvez precise de uma coisa meio abominável, que são os partidos políticos, pois a democracia do Augusto ainda não tem instituições que substituam esse animal institucional do século 19.

Se não conseguir, terá que convencer um bocado de gente, levará um bocado de tempo, e talvez a ideia tenha que mudar um pouquinho, hehehe.

Mas de qualquer forma, a idéia do Augusto é um raio de sol na aurora de um novo tempo, que irá chegar.
Enquanto não chegar, as outras ideias do Augusto são o máximo! E por que não termos uma solução em rede na qual outros Augustos possam também trazer suas ideias? Uma rede de inovação? Isso já é possível hoje, e é uma forma de canalizar as justas insatisfações de todos que são prejudicados por processos burros como este processo operacional do ENEM (burro é o processo, não o ENEM)
.
Talvez o que falta para aproveitar tudo que têm de bom todas essas ideias é introduzir a dimensão tempo. As melhores ideias do Augusto são atemporais. Mas os Augustos do país podem gerar grandes ideias para aqui e agora
.
Ou seja, a gente se entende, é só uma questão de tempo:-)

Um grande abraço
Sérgio
Na verdade é muito fácil ter um sistema de avaliação combinado: auto-avaliação + comum-avaliação + avaliação "de duas mãos" (ou da interação) do catalisador do processo de aprendizagem (que seria mais ou menos assim como um professor desprofessorado de uma não-escola, numa sociedade desescolarizada). A avaliação deveria ser permanente e não num dia D. Boa parte de nós (os humanos) só a custa de muita autoviolência aceitamos participar de provas, torneios, competições (e não é a toa que somos recompensados emocionalmente quando cooperamos). Em suma, tudo isso faz parte de uma tenebrosa verticalização do mundo...




Sergio Storch disse:
Augusto, o Augusto deu várias soluções.

A melhor de todas foi acabar com as provas. Se o Augusto conseguir um jeito de transformar a ideia em projeto de lei, pondo algo no lugar, então dá pra resolver em pouco tempo. Mas talvez precise de uma coisa meio abominável, que são os partidos políticos, pois a democracia do Augusto ainda não tem instituições que substituam esse animal institucional do século 19.

Se não conseguir, terá que convencer um bocado de gente, levará um bocado de tempo, e talvez a ideia tenha que mudar um pouquinho, hehehe.

Mas de qualquer forma, a idéia do Augusto é um raio de sol na aurora de um novo tempo, que irá chegar.
Enquanto não chegar, as outras ideias do Augusto são o máximo! E por que não termos uma solução em rede na qual outros Augustos possam também trazer suas ideias? Uma rede de inovação? Isso já é possível hoje, e é uma forma de canalizar as justas insatisfações de todos que são prejudicados por processos burros como este processo operacional do ENEM (burro é o processo, não o ENEM)
.
Talvez o que falta para aproveitar tudo que têm de bom todas essas ideias é introduzir a dimensão tempo. As melhores ideias do Augusto são atemporais. Mas os Augustos do país podem gerar grandes ideias para aqui e agora
.
Ou seja, a gente se entende, é só uma questão de tempo:-)

Um grande abraço
Sérgio
Claro que minha última resposta ao Sérgio, acima, não pode ser aplicada para solucionar os problemas do ensino da atualidade. Mas não quero resolver - nem ajudar a resolver - tais problemas. Que se vire com eles quem acredita no ensino!

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