Escola de Redes

O Barcelona e a

Nova Ciência das Redes

Augusto de Franco

Draft 2 26/04/2012

 

Aqui onde moro atualmente, nos Jardins, em São Paulo, ouvi ontem (24/04/12) ao final da partida Barcelona x Chelsea, gritos enfurecidos: "Chupa Barcelona Filho da Puta!". A partida empatou (2 x 2), mas o Barcelona foi eliminado da Champions League porque precisava vencer por dois gols et coetera.

Fiquei pensando se Albert Camus, prêmio Nobel de literatura, não tinha razão quando dizia que de todas as suas experiências na vida a que maior conhecimento lhe proporcionou sobre os homens foi o futebol. Aquele buzinaço que se seguiu à partida, comemorando o não-futebol do Chelsea, me disse muita coisa desagradável. Revelou, por um lado, as entranhas da intolerância com o que foge dos padrões. Mais do que isso, entretanto, soou, por outro lado, como um lamento desesperado de seres aprisionados que gostariam de se libertar mas não o fazem porque acham que não é possível, porque imaginam que a sua prisão é universal.

Quem viu o jogo pôde perceber que o Chelsea, a partir de certo momento (coincidente com o início da partida), praticamente não jogou bola. Matou o tempo. Matou o futebol. Mesmo assim, contou com o entusiasmo de fervorosos torcedores. Mais do que isso, contou com hard feelings de uma multidão que mais parecia estar se vingando da arte.

Arte? Como é possível? Parem com isso! O que queremos é a guerra. Não queremos um lírico Iniesta fazendo firulas no meio campo. Queremos a força, a garra, o vale-tudo orientado pelo resultado do gigante Drogbah. Fora Iniesta, seu anão imprestável! Drogbah é o nosso herói!

Bem, devo dizer que meu interesse no assunto não é propriamente futebolístico e sim investigativo e decorre de minhas explorações na nova ciência das redes. Há bastante tempo venho observando como a topologia da rede “produz” o comportamento coletivo. É claro – não vou negar – que prefiro me deleitar assistindo o novo futebol criativo do Barcelona do que o futebol de resultados dos times ingleses e italianos que envelheceram-mal e que só sabem dar chutão prá frente para tentar surpreender a defesa desarmada do oponente. Ainda não me deformei a ponto de gostar da realpolitik: para isso não preciso de futebol: bastaria acompanhar as guerras, a luta política pervertida como arte da guerra ou a concorrência adversarial praticada pelas empresas hierárquicas.

Mas isso agora talvez não venha ao caso.

Diz-se que o Barcelona perdeu porque ficou vulnerável. Concordo. Acho que o futebol do Barcelona é extremamente vulnerável mesmo, não a um ou outro adversário que tenha estudado suas fraquezas e sim às regras do futebol, que não acompanharam a evolução do futebol.

O velho futebol do século 20 é – como observou argutamente George Orwell no artigo “The Sporting Spirit” (London: Tribune, December 1945) – uma espécie de guerra sem mortes (“It is war minus the shooting”, escreveu ele textualmente). Não é bem um jogo, uma atividade lúdica da qual se possa tirar fruição, admirada em si mesma ou por si mesma, uma coreografia estrutural coletiva onde as coordenações de coordenações comportamentais se encaixem sinergicamente (a essência da dança e daí a arte), mas um vale-tudo no qual se exalça as capacidades dos indivíduos de obter por qualquer meio a vitória, seja dando uma joelhada desleal nas costas do jogador adversário, seja falsificando abertamente as regras (pois, afinal, “guerra é guerra” e na guerra, como se sabe, é necessário que a primeira vítima seja a verdade).

Parece óbvio que o futebol one-touch oriented do Barcelona exigiria novas regras no-touch oriented. Por exemplo, as regras atuais do futebol deixam um jogador tirar outro fisicamente da jogada com um encontrão (que se for feito com o ombro, com o quadril ou com o tronco, na maior parte dos casos não é falta e sim “disputa normal” do jogo). Ora, nessas condições, quem se prepara melhor para o vale-tudo (quem se prepara para a guerra) tende a prevalecer.

Nessa espécie de variação de baixa intensidade do rugby, o futebol vai assim se rendendo aos atributos físicos individuais dos jogadores e à chamada “tática”, traçada de antemão por algum chefe-técnico que monta seus ardis com base no comando-e-controle. Não é por acaso o deslizamento de categorias próprias da guerra para o futebol: tática, estratégia, ofensiva, defensiva, espírito de corpo ou coesão e aplicação tática (quer dizer, subordinação a um esquema pré-determinado). Faz sentido. E a utilização desses conceitos só corrobora a hipótese de George Orwell. Mas o problema é que tudo isso favorece o ânimo adversarial e diminui as nossas oportunidades de sentir aquele prazer tipicamente humano de contemplar as interações sociais (quer dizer... aquelas interações tipicamente humanas).

O Chelsea é uma remanescência do futebol do século passado. No entanto, como as regras do jogo continuam no passado, já se sabia, antes da partida, que tudo poderia acontecer. Quer dizer: que o não-futebol poderia vencer o futebol. Como venceu, pelas regras. Não apenas o Chelsea, mas qualquer outro time poderia (e poderá) vencer o Barcelona, sem violar as regras. Porque é fácil derrotar o Barcelona. Basta, para tanto, derrubar seus jogadores. Se o jogador não está em pé ele não pode jogar. Ponto.

No entanto, o futebol do Barcelona não foi derrotado pelo futebol de outros times. Nem poderá sê-lo. Mesmo que o Barcelona venha a perder todas as próximas partidas que disputar, parece óbvio que um número maior de caminhos (mais passes por unidade de tempo) significa a configuração de uma topologia de rede mais distribuída do que centralizada. E que quanto mais distribuída for a topologia da rede, mais conectividade e mais interatividade haverá. E que, assim, mais possibilidades surgirão de fazer a bola chegar ao gol adversário (a regra suprema do jogo). É matemático. O que não quer dizer que ocorrerá sempre.

Eis os diagramas ilustrativos (publicados originalmente por Paulo Ganns, na Escola-de-Redes) do jogo Barcelona x Santos em dezembro de 2011. Veja-se a diferença das topologias (caricaturadas na imagem para evidenciar a diferença).

 

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E eis agora minhas variações do diagrama do Paulo Ganns, comparando a rede distribuída configurada pelos passes do Barcelona com a representação de um emaranhado quântico (imediatamente abaixo) e a rede centralizada do Santos Futebol Club com o organograma de uma organização centralizada (mais abaixo).

 

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Pois bem. O mais importante, do ponto de vista das redes, vem agora.

O campo social gerado pela alta interatividade do Barcelona (o time mais highly connected que já foi formado) enseja a manifestação daqueles fenômenos acompanhantes da auto-organização e da inteligência coletiva: seus jogadores se aglomeram (clustering) e desaglomeram de acordo com os fluxos da partida, jogam a maior parte do tempo sem a bola, mudando de lugar continuamente (o time é realmente mobile), praticam o imitamento ou cloning (clonagem variacional dos movimentos dos outros jogadores do mesmo time e, às vezes, do time adversário – coisa que pouquíssima gente nota, sobretudo os experts no assunto), eventualmente enxameiam (swarming) impedindo que a bola saia do campo adversário e diminuem o espaço-tempo para os movimentos do oponente, quer dizer, contraem o tamanho social do mundo composto pelos vinte e dois players (o Barcelona provoca o efeito Small-World). Basta observar: seus jogadores são pequenos (não precisam de corpo avantajado), seus passes são pequenos (curtos)... O Barcelona – provavelmente sem ter a menor consciência disso – causa esse amassamento (crunching) e talvez esta seja sua principal virtude e vantagem comparativa: o Barcelona é a prova viva de que small is powerful!

Por tudo isso, não tenho receio de afirmar que há mais inteligência coletiva embutida num jogo do Barcelona do que em todas as partidas travadas pelo Real Madrid, ainda que este último possa ter craques com mais assertividade e mais combatividade e sejam mais – como direi? – results-oriented do que os jogadores do Barcelona.

Bem... aqui começa minha investigação. O jogo aparentemente bobo do Barcelona, de ficar trocando passes redundantemente na intermediária é em geral censurado pelos comentaristas futebolísticos (e por outros metidos a profundos conhecedores de futebol) como sintoma de falta de objetividade. Mas a contração de redundância (repetição de caminhos) com distribuição (multiplicação de caminhos) é o que compõe a resiliência, uma das características principais da sustentabilidade (ou do que chamamos de vida). O tempo de posse de bola é um indicador indireto dessa resiliência quando revela, entre outras coisas, a frequência da mudança de trajetória da bola e a repetição de caminhos (não é raro ver um jogador do Barcelona trocar passes com outro jogador mantendo os dois praticamente as mesmas posições; ou então progredindo no terreno como em um movimento solidário de dois corpos, como se fosse um haltere se deslocando ou Plutão e Caronte em translação ao redor do Sol).

Sim, o Barcelona imita a vida. Ao contrário do que se pensa, a vida nunca trabalha com economia de esforços e sim com repetição intermitente (iteração) de ações similares. E a vida não economiza esforços simplesmente porque não precisa fazer isso, porque multiplicação de caminhos gera abundância e não escassez.

Mas não é só isso. O Barcelona clona o funcionamento do formigueiro. Como as formigas, seus jogadores não têm posição fixa, mas podem mudar de função várias vezes em uma mesma partida. Como nos mostrou a cientista Deborah Gordon (1999), em “Formigas em ação”, ao contrário do que se acreditava, as formigas mudam de função (dependendo das necessidades coletivas do formigueiro, uma forrageira pode virar “soldado”, por exemplo). Os jogadores do Barcelona também não têm dificuldade de mudar de posição (ou de função). Usando as antigas denominações (no caso, merecidas): o ponta esquerda pode virar ponta direita, o meio-campista pode virar beque ou centroavante, qual o problema?

O problema é que se pensava em produtividade a partir da especialização, do desempenho ótimo de funções fixas: como na produção fordista, um indivíduo que repetiu milhares de vezes a mesma função tem mais chances de ser mais rápido e menos chances de errar no exercício daquela função determinada. Isso é válido, por certo, para a reprodução mecânica das mesmas ações. Aplicado ao futebol, porém, contribui para eliminar a criatividade, sobretudo a criatividade coletiva, quer dizer, o ambiente favorável à criação ou à inovação. Instaura-se assim o futebol reprodutivo, a fábrica de jogar bola da sociedade industrial.

Nesse ambiente reprodutivo o que se destaca é o craque (o indivíduo), não o time (a rede social composta pelos jogadores interagindo segundo determinado padrão). Porque, em tais circunstâncias estruturais da rede centralizada só a genialidade individual pode romper o esquema, surpreender, sair fora da caixa. Tudo então passa a depender dos craques, dos indivíduos. É o futebol-burro com a sobressaliência dos pontos fora da curva, daqueles indivíduos inteligentes capazes, como se diz, de fazer a diferença e definir a partida com um lance magistral.

E é por isso que se atribui, não raro, o sucesso do Barcelona à genialidade do craque Messi. Sim, Messi é de fato um jogador excepcional, mas o futebol do Barcelona não depende de suas jogadas excepcionais. Com toda certeza as interações do dipolo Xavi Hernándes – Andrés Iniesta e deles com o restante do time (com Lionel Messi inclusive e deste último com Daniel Alves) são mais decisivas para o excelente comportamento do time do que os lances geniais individuais do fabuloso artilheiro argentino. Essas bobagens são ditas porque ainda é bastante generalizada a crença de que o comportamento coletivo pode ser explicado a partir dos atributos dos indivíduos, de que a inteligência coletiva é a soma das inteligências dos indivíduos e não uma nova qualidade que emerge das relações entre eles.

Os gritos enraivecidos de ontem, comemorando a eliminação do Barcelona (sim, porque o time não perdeu o jogo, foi desclassificado pela tabela), revelam que existe base social para legitimar mais um retrocesso no futebol. Dir-se-á que o “estilo-barsa” esgotou-se, que o “futebol-arte” não pode resistir ao “futebol-de-resultados”, que “Messi entrou numa fase ruim”, que o futebol é assim mesmo (as modas, os estilos, vêm e vão) e outras besteiras semelhantes. Já se dá até como certa a derrota do Barcelona para o Real Madrid no campeonato espanhol (e isso pode acontecer mesmo).

Assistiremos, provavelmente, a mais uma daquelas tristes revoltas de escravos que introjetaram a escravidão a tal ponto que, em vez de lutarem para se libertar dessa condição, não suportam ver que existem pessoas livres e querem torná-las também escravas como eles. Assim interpretei os gritos de “Chupa Barcelona Filho da Puta” no final da tarde de 24 de abril de 2012.

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Respostas a este tópico

Creio, como Breno Junior se referiu, na grande força da rede; o amor. Nesse reconhecimento do outro com parte de nós mesmos, no reconhecimento do eu a partir do tu, nas suas revelações permanentes e produtivas, que significam a potencialização da percepção e na eterna necessidade de retroalimentação.

Augusto, este texto me levou à seguinte reflexão: o processo de transformação da cultura competitiva é lento, e seria legal usar o conceito de limiar (threshold), a partir do qual ela começa a penetrar nos outros times, e a mudar a ética do jogo, e somente à medida em que mudar a ética do jogo e se estabelecer na forma de normas sociais, ela determinará novos comportamentos.
Antes desse limiar, a pressão social será no sentido de que o Barça volte a se render às regras do jogo que são hegemônicas. De forma aleatória poderá surgir um outro Barça voltando a propor as regras da horizontalidade que você tão bem descreveu, e o ciclo poderá se repetir até que, em algum momento, as torcidas tenham assimilado normas compatíveis com um mundo mais distribuído que centralizado.

Como assimilarão essas normas? Talvez no processo de diferenciação (semelhante à diferenciação celular), em que cada torcida gera subtorcidas que praticam outros comportamentos e se tornam mais atraentes para torcedores que não gostam do ancien régime.

É um processo dialético de destruição do velho para que o novo nasça.

Aí entra uma outra fenomenologia: a da história. Quem serão os atores, os líderes de opinião, os grupos... Que forma tomará o novo paradigma através de novas ideologias em cada campo, e neste caso, no campo específico do futebol, ou dos jogos em geral?

É um espaço de indeterminação, onde sinto necessidade de instrumentos teóricos que ainda me são pouco conhecidos, como a noção de atratores na teoria da complexidade.

Feitas essas reflexões, quero agradecer, como alguém totalmente autoexcluído do mundo do futebol, a oportunidade de ter visto nesse campo uma aplicação tão bonita e engenhosa da ciência das redes. Até me faz começar a ver o futebol de outra maneira...

Um abraço
Sérgio

Talvez não a dialética, Sergio, mas a trialética. Veja este post aqui na E=R (sugestão do Carlos Boyle): Sobre as regras do jogo e o comportamento coletivo. Com isso quero dizer que o comportamento depende fundamentalmente das regras (do que os nodos podem fazer) e não do que eles intencionam fazer. A questão que se coloca é: como mudar as regras? Eu acho realmente que é como o Barcelona está fazendo: iniciando um novo comportamento você tem chances de mudar comportamentos (é só assim que muda mesmo: ideias não mudam comportamento, só comportamentos mudam comportamentos). O processo pode ser lento ou rápido. No caso da guerra foi sempre rápido. Novos estilos de guerra (novos comportamentos na guerra) mudaram a maneira de fazer a guerra: é só comparar a guerra de posição (de trincheiras) da I Guerra com o que se fez na II Guerra e, agora, com a chamada guerra do terror ou contra o terror. Desgraçadamente não se deixou de fazer a guerra. Cito a guerra para dizer que enquanto o futebol for adversarial, como uma guerra sem mortes, como dizia Orwell, as mudanças serão pequenas variações dentro do mesmo padrão. Aí o Asger Jorn, no texto citado, percebendo isso, pensou em alterar radicalmente a configuração do jogo, introduzindo três times em vez de dois... É claro que neste caso muda tudo mesmo.

É, Augusto, ainda ontem vi um documentário na Cultura, "A queda dos Romanoff", que mostrou vividamente como os russos, alemães, ingleses etc., mas especialmente os russos, foram mobilizados como nuvem de gafanhotos para irem ao campo de batalha ou para os navios. E sendo benzidos pelos padres ortodoxos que iam às trincheiras para dizerem que Deus estava com eles. E eu nunca havia sabido que foram 35 milhões de mortos... 

Você está certo... as regras mudaram... com toda a violência que vemos hoje no mundo é inimaginável que algo como as duas guerras mundiais volte a acontecer... Bem que o Steven Pinker disse que a violência está diminuindo...

Para registro:

Marx/Engels (fragmento de "A ideologia alemã"):

Não têm história, não têm desenvolvimento; serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar este assunto, parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo, e na segunda, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como sua consciência.

Augusto:

Com isso quero dizer que o comportamento depende fundamentalmente das regras (do que os nodos podem fazer) e não do que eles intencionam fazer.


Exatamente, Paulo! (Mas chego à mesma conclusão por outros caminhos, bem-distantes daqueles trilhados pelo jovem-Marx).

Aproveito a oportunidade para dizer o seguinte. Assistindo ontem a partida Barcelona (4) X Espanyol (0) corroborei mais uma vez minha comparação com o formigueiro. Em alguns momentos do jogo esse comportamento era nítido: sobretudo quando o Espanyol tentava sair com a bola, ainda em seu campo, eram "atacados" por enxames de jogadores do Barcelona (cinco ou seis, que surgiam como que de nada, de todas as partes). Não era um comportamento clássico "de defesa", de marcação homem-a-homem ou corpo-a-corpo: era enxame mesmo. Talvez seja interessante repassar o jogo em câmera rápida para perceber a evolução dos movimentos, melhor ainda se for possível apagar os jogadores adversários e substituir os jogadores do Barcelona por pontos luminosos (nodos). O que veremos será surpreendente. 

Paulo Ganns @pganns disse:

Para registro:

Marx/Engels (fragmento de "A ideologia alemã"):

Não têm história, não têm desenvolvimento; serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar este assunto, parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo, e na segunda, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como sua consciência.

Augusto:

Com isso quero dizer que o comportamento depende fundamentalmente das regras (do que os nodos podem fazer) e não do que eles intencionam fazer.


Mas Augusto, aqui vai uma dúvida de um homem comum:

Se as regras, como ideias, por hipótese, emanaram da coletividade, não seriam as mesmas parte de nosso comportamento e estaríamos aqui tentando idealizar um novo comportamento, presos numa armadilha de lógica, já que a realidade empírica de Marx/Engels, ou o comportamento das "formigas", é o que de fato nos define?

Augusto, data vênia, acho que o fato ilustra uma tese oposta à sua. 

A meu ver, o enxameamento do Barça não segue regras, e sim a uma estratégia consciente. Outro time, com outra estratégia, não faria o enxameamento.

Acho, como o Paulo, que estamos numa armadilha de lógica, e que esse determinismo das regras se desmonta rapidamente. Tenho uma alergia à naturalização do comportamento social, e acho que essa pista é derrapante.

Creio que aí há uma outra trilha de investigação mais promissora, que é a da ciência da complexidade, em que o caos é rompido pelo surgimento de atratores. Um dos atratores, neste caso, é a existência de uma estratégia consciente. 

Do ponto de vista político, eu resgato aqui a questão do "papel do indivíduo na história", e um voluntarismo que me faz dar sentido a um bocado de coisas. Lembro a frase de Margaret Mead: "não há nada que um pequeno grupo de pessoas comprometidas não possa mudar. E é somente isso que pode mudar mesmo". 

É onde nos diferenciamos das formigas: na consciência.

Do ponto de vista teórico, não tenho a bagagem, mas é onde considero que tenho mais a aprender. Sugiro que façamos uma hibridação da ciência das redes com a ciência da complexidade, para dar conta melhor do que acontece nas redes SOCIAIS, diferentemente das redes em geral. Talvez dando uma espiadinha na Escola de Complexidade, que nasceu na Escola de Redes, e buscando lá mais insumos teóricos. Aliás, eis aí uma boa oportunidade.

Dei uma escapada e fui lá buscar o Antonio Sales. Tomara que venha.


Acho que as regras entendidas como as possibilidades de interação determinam como a interação vai se manifestar. Se você cria regras mais rígidas, certos fenômenos não ocorrerão (por falta de caminhos). Mas isso não significa que as regras vão determinar o quê vai acontecer. Aí temos mesmo que apelar para as explicações das teorias da complexidade.

De qualquer modo, a consciência não influi em nada no comportamento coletivo. O enxameamento é decorrência da interação (é uma fenomenologia da interação). É claro que se as regras impedissem, por exemplo, um jogador dar mais de um passe a cada 10 minutos, ele (o swarming) não poderia ocorrer (e nem, no caso deste exemplo absurdo, boa parte dos demais fenômenos da interação). Mas as regras do futebol, ainda que determinem as possibilidades gerais de modo restritivo, permitem - mesmo assim - a manifestação de uma fenomenologia interativa. É claro que se você fizer um futebol com mais possibilidades de interação (por exemplo, três times em vez de dois - como naquele futebol trialético, já publicado e comentado aqui), as possibilidades interativas aumentarão exponencialmente.

Minha contribuição e ao mesmo tempo meu questionamento se dá a partir da terceirade de Chales Sanders Peirce da Semiótica: A nossa percepção do jogo é a de um Outro, externo a percepção do jogo por parte dos dois times. Se cada um dos times tivesse a percepção desde um Outro ou Outra Posição Perceptual como estamos fazendo aqui é bem possivel que todos, tocida e times, percebessem como tal jogo bruto pode ser "um tiro no prório pé" para todos: um mau futebol não leva gente ao estádio e não se vende....só se se transformar em luta campal. Aí é outro esporte....

Sérgio, muito legal... Esse conceito puxa ainda um outro, da teoria dos jogos: o Dilema do Prisioneiro.

De repente estamos num processo co-criativo transdisciplinar, em que cada um vai trazendo de sua experiência conceitos que vão se integrando em rede. Essa discussão pode nos levar a algo muito bonito, hein? 

A grande jogada do Marketing sobre o Esporte e as Artes em geral, como a música e o cinema, faz uma espécie de mitificação de personagens. Atletas, músicas, atores... enfim, na tentativa de colocá-los no pedestal divino da referência. O famoso 'Exemplo de sucesso do bem sucedido'... Isto tudo, em busca de resultados materiais, ou seja , quando a lenda está no auge, bate-se o marte-lo e empurra-se guela abaixo dos súditos, torcedores e fãs mercadorias apoiadas em um estilo de vida. Depois deste processo, quando a lenda dá-se por superada, enterra-se o mito e seguem-se as buscas pela nova bola da vez!

Haverá sempre um ranking FIFA, uma lista dos mais ouvidos, Os Top Programas mais baixados, etc. Novos Barcelonas, gigantes em suas áreas de atuação. Mas para cada Davi sempre haverá um golias. Os gritos de 'chupa Barça' mostram de fato que os favoritos também sofrem derrotas, E que os admirados por alguns, podem ser detestados por outros. Ainda ouviremos muitos aplausos... e vaias também. 

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