A figura clássica representada em afrescos renascentistas nos remete à mulher como uma figura dócil e ao mesmo tempo perversa. Ao entregar para Adão a maça, o fruto proibido, Eva renega a humanidade e a leva à desgraça ao abrir as portas dos prazeres mundanos. Tudo culpa da serpente, que a persuadiu a cometer tal crime humanitário.

A perspectiva judaico-cristã sugere, ainda, que a mulher seja nada mais que um pedaço do homem. Eva fora criada por Deus a partir da costela de Adão, que, por sua vez, fora forjado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, a mulher deveria ser considerada como um ser inferior.

Por qual razão esse mito persiste até os dias de hoje e quais são suas raízes? Se considerarmos a evolução recente de nossa espécie nos últimos 1 a 2 milhões de anos, somos na história do planeta (4,5 bilhões de anos) tão irrelevantes como um sopro ou um pum, dependendo da perspectiva. Sabemos que o comportamento nômade, facilmente modelado por estatísticas de vôos de Lévy, é similar ao de outras espécies da natureza.

É sabido também que o surgimento das primeiras sociedades agrárias representa o principal ponto de bifurcação entre humanoides nômades e sedentários. Mas o que isso tem que ver com a concepção judaico-cristã de Adão e Eva? Ora, praticamente tudo se levarmos em conta que quem descobriu a agricultura foi a mulher e não o homem. Enquanto homens caçavam, mulheres cuidavam das suas crias e percebiam de forma mais clara as mudanças que aconteciam ao seu redor.

É muito provável que as mulheres tenham se dado conta de que restos e resíduos alimentares podiam produzir grãos e frutos. Além disso, a domesticação animal também pode ter se originado nas habilidades femininas de cuidar bem de proles de animais mortos pelos homens caçadores. Olhando por esse prisma, percebe-se que a mulher teve sim um papel decisivo na origem e evolução das primeiras sociedades agrárias, tanto para a produção vegetal quanto para a produção de proteína animal.

O símbolo de Adão e Eva deveria originalmente trazer essa noção de devoção e gratidão às mulheres que os homens deveriam manter por toda a eternidade. A maça e a serpente representam a domesticação da natureza dando origem à agricultura e a produção de proteína de origem animal. Contudo, a deturpação machista do mito foi necessária por dois motivos principais. Primeiro porque os homens precisavam cercar e lutar por suas terras, agora importantes para produzir alimentos, e água era um recurso essencial para desenvolver tais atividades. Em segundo, para manter uma estrutura hierárquica do mais forte, do mais poderoso, que detém mais terras, mais escravos, mais mulheres, etc.

A centralização do poder desde as primeiras sociedades agrárias, com símbolo mais representativo e presente as construções em forma de pirâmides, fortalece sistemas mais centralizados que distribuídos, e requer, portanto, uma modificação do significado do mito de Adão e Eva, colocando a mulher em segundo plano, renegando-a a uma figura perversa que tirou o homem ‘puro’ do paraíso divino. A religião (religar-se ao divino) fora então associada ao poder através das leis dos homens (da guerra), não das leis das mulheres (do compartilhamento). Todo 8 de março é comemorado o dia das mulheres face aos preconceitos submetidos desde que o homem deturpou seu lampejo de inovação dado de graça à humanidade.

Talvez se nós homens as tivéssemos escutado melhor, o mundo hoje seria mais saudável, mais distribuído que centralizado. Elas, entretanto, também precisam se perceber e reencontrar-se como luz de sabedoria, e não apenas comportar-se igualmente aos homens guerreiros. Muitas vezes, o feminismo se perde na exigência de igualdade entre homens e mulheres e na verdade a questão é mais complexa. De fato, homens precisam perceber as mulheres como seres de grande sapiência e juntos mudar sua programação cerebral e destino, bem como das suas crianças, para sistemas mais distribuídos e democráticos. É preciso reencontrar o verdadeiro significado do mito de Adão e Eva e transmiti-lo para as futuras gerações. Mulheres, apoderem-se do que lhes é de direito na história.