Escola de Redes

Caro Augusto, tudo bom?

Estava relendo seu livro MULTIVERSIDADE, e há um ponto em que vc comenta a respeito da meritocracia:

Avaliação de mérito pode ser feita legitimamente por qualquer instância privada para os que voluntariamente a ela se submeterem, mas instituição de meritocracia é outra coisa: é um regime de  poder (no sentido mais geral de poder de mandar nos outros) baseado no mérito, na posse, reconhecida e atestada pela corporação dos “sábios”, de um conhecimento científico-técnico (epistéme ou  techné) que permite a alguns ocupar posições hierárquicas superiores às ocupadas por outros (que não possuem tal conhecimento ou que não tenham, por parte da corporação, o reconhecimento e o atestado devidos). Esse era o argumento de Platão e de seu Sócrates para desqualificar a liberdade de opinião (doxa) que estava na raiz da democracia ateniense: como poderíamos deixar os destinos da cidade nas mãos dos ignorantes (dos não-sábios, dos que possuem apenas suas meras opiniões e não o conhecimento filosófico e técnico)?

Um dos aspectos que entendi quando li alguma coisa sobre sinarquia dizia, em suma, que era o governo exercido pelo mais apto. Ou seja, haveria um reconhecimento (não sei se de todos ou se de uma "elite de sábios") àquele mais apto para exercer determinadas funções (sejam quais forem, em quaisquer esferas).

Não sei se vc já navegou pelos mares da sinarquia, mas há algo em comum realmente entre ambos?

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Sim, já, Marcelo.

Governo do mais apto é uma expressão do governo dos sábios de Platão, ou seja, uma reação autocrática à democracia nascente. Platão também achava (confira a sua descrição do "tecelão real" em As Leis) que isso deveria ser centralizado em um indivíduo extraordinário (o que gerou, tempos depois, o conceito vagabundo de déspota esclarecido). Mas Platão apenas ecoava a tradição (e se você leu algo sobre sinarquia deve saber a que me refiro). Quando falamos de tradição (A Tradição) evocamos o processo de replicação - para outras regiões do tempo - dos mesmos padrões, no caso, míticos, sacerdotais, hierárquicos e autocráticos, que surgiram "numa certa tarde de sábado" (como brincou o matemático Ralph Abraham para falar do precedente sumeriano, de algo que não "evoluiu" mas se constelou de repente).

Tudo isso, a meu ver, é uma perversão, anti-humana ou desumanizante. Havendo governo, deve governar qualquer um que tenha e seja capaz de proferir opiniões (doxa), não conhecimentos ou técnicas (episteme e techné). De preferência pessoas-comuns, não pessoas-extraordinárias (como o sábio governante), não heróis, não santos (ou mahatmas). Do contrário teremos hierarquia, separação entre sábios e ignorantes, virtuosos e pecadores, sagrado e profano... Bem, o resto da história você já sabe.

Obrigado pelo retorno Augusto. Sabe que desde criança estou envolvido, aprendendo, lendo sobre tudo quanto diz respeito à Tradição citada aqui. Durante todos estes anos, me envolvi com diversos grupos e escolas iniciáticas, enfim, tem sido um processo pra lá de interessante desconstruir tudo isso em mim. E se o faço, é porque pra mim tudo isso (sobre as redes) faz muito mais sentido. Não só por todas as questões que vc aborda, mas porque algumas experiências internas (chamemos como quiser) que tive nos últimos anos, me mostraram uma realidade, um caminho, que não era mais explicado com tudo aquilo que havia aprendido. Tudo se contradizia. E esta nova ciência das redes, é capaz de dar sentido a tudo isso. Ainda trago certa inércia com respeito à Tradição. Vivenciei e tive contato com isso de um forma muito concreta, em nenhum momento subjetiva. Porém, o sentir este fluzz que nos transpassa também me revela que tudo isso deixou de ter sentido, pouco importando o quanto foi real ou não no passado.

Compartilho isto contigo, porque percebo que talvez vc tenha passado por processos semelhantes, e a troca de como ocorreu esta transformação em cada um de nós, pode ajudar muito àqueles mais próximos de nossas redes particulares - glocais.

É isso Marcelo. Embora aqui cada caminho seja um caminho. Enquanto for. Não há mais caminho.

Augusto, haveria alguma meritocracia social? Quero dizer, quando o mérito é reconhecido pela ou por parte da sociedade? Ou isso já é outra coisa? Por exemplo, é correto usar meritocracia quando as pessoas reconhecem que determinada pessoa conhece mais profundamente ou possui mais experiência em qualquer assunto, e assim, naturalmente passam a ter tal pessoa como uma "autoridade" na coisa? Isso pode ocorrer de alguma forma em redes distribuídas ou em sua fenomenologia? 

Acho que há sim Marcelo. Mas aí é outra coisa: não é uma "cracia"... Gerônimo (entre os Apaches), por exemplo.

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